No dia 3 de agosto de 2020, começou um pesadelo para indígenas e ribeirinhos que moravam em comunidades às margens do rio Abacaxis, na Amazônia. Naquele dia, três barcos particulares chegaram à cidade de Nova Olinda do Norte transportando dez policiais militares do estado do Amazonas à paisana; dez dias antes, alguém havia atirado contra um barco que pescava ilegalmente na região. Um secretário estadual , que estava a bordo, teria sofrido um ferimento leve. Testemunhas afirmaram que ele prometeu voltar para se vingar.
As coisas não saíram como planejado.
Houve um tiroteio em uma das comunidades ribeirinhas, e dois policiais foram mortos. Segundo moradores locais, aqueles que efetuaram os disparos não sabiam que os homens nos barcos eram policiais. As autoridades do estado do Amazonas apresentaram uma versão diferente, alegando que um grupo de traficantes de drogas havia emboscado a polícia.
Em resposta, o estado enviou 50 policiais militares. Moradores relataram que, nas semanas seguintes, os policiais passaram de comunidade em comunidade, queimando casas, torturando e matando pelo menos seis pessoas. Outras duas continuam desaparecidas até o momento e são consideradas mortas.
Na época, um procurador da República e a Human Rights Watch alertaram que estavam ocorrendo graves abusos, mas as autoridades estaduais e a Polícia Federal não atuaram para impedi-los.
Seis anos depois, ninguém foi responsabilizado. A Human Rights Watch enviou uma carta aos relatores da Organização das Nações Unidas e à Comissão Interamericana de Direitos Humanos em 3 de agosto de 2026, instando-os a pressionar as autoridades brasileiras a garantir justiça e a proteger as vítimas e os ativistas locais.
A carta menciona o caso de um líder comunitário que afirmou que policiais o espancaram repetidamente na presença do então comandante da Polícia Militar do Amazonas. Eles também colocaram um saco plástico em sua cabeça e ameaçaram cortar seus órgãos genitais com um canivete, lembrou ele.
Por fim, os policiais o soltaram com uma advertência: “se falar, tu vai morrer”. Mesmo assim, ele denunciou a tortura á Polícia Federal.
Sua coragem, e a de outras testemunhas — incluindo um pai que relatou como os policiais colocaram seu filho de seis anos dentro de um freezer —, levou o Ministério Público Federal a apresentar denúncias em 2024 e 2025 contra o ex-secretário de Segurança Pública do Amazonas e 12 policiais.
Atualmente, os processos continuam paralisados devido a uma disputa jurídica sobre qual tribunal tem jurisdição para conduzir os julgamentos. Enquanto isso, os sobreviventes vivem com medo.