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Familiares de vítimas da Operação Contenção, realizada em 28 de outubro de 2025, soltam balões durante um ato por ocasião do primeiro aniversário da operação policial no Complexo da Penha, no Rio de Janeiro, Brasil. © 2026 João Paulo Casalino for Human Rights Watch

Leva muito tempo para ler mais de cem nomes. Eu segurava um balão branco ao lado dos parentes das vítimas, alguns vestindo camisetas com fotos de seus entes queridos. A lista não tinha fim. À medida que Tauã Brito dizia um nome após o outro, como se lesse lápides, a dimensão da tragédia me atingiu. Então ela chegou a Wellington Brito Santos, seu filho de 20 anos. Ele, assim como os outros, havia sido morto durante a Operação Contenção, em 28 de outubro de 2025.

Um ano depois, estávamos exatamente no local onde os moradores haviam colocado dezenas de corpos que a polícia havia abandonado em uma área de mata do Complexo da Penha, um conjunto de favelas no Rio de Janeiro.

Quando ela terminou de ler os nomes, soltamos nossos balões. Eles subiram por entre o emaranhado de fios elétricos acima de nossas cabeças, passando pelas vielas estreitas da favela, em direção ao céu do Rio de Janeiro, a “Cidade Maravilhosa”.

Uma colega me perguntou como eu estava. Comecei a chorar. 

Foi um dia de luto pelas mortes sem sentido de 122 pessoas, incluindo dois meninos e cinco policiais, durante a operação, e outras duas antes mesmo de ela começar oficialmente. Suas mortes não mudaram nada na favela. Meus colegas da Human Rights Watch, Sophia, Damir, Renata, e eu participamos do ato de memória, mas não pudemos nos aventurar além da Praça São Lucas. O mesmo grupo criminoso alvo da operação continuava a exercer controle armado sobre a área e a submeter os moradores à sua tirania.

No entanto, o evento também foi uma celebração de esperança e solidariedade. As crianças pulavam em pequenos castelos infláveis, pintavam o rosto e jogavam pebolim. Um grupo de capoeiristas dançava ao ritmo de músicas que africanos escravizados transformaram há séculos numa arte marcial, uma dança e um ato de resistência.

“Nós resolvemos fazer esse ato de vida onde o Estado ofereceu morte.”, disse-me Tauã Brito. “A gente pede que o Estado não entre somente com a força armada, mas que venha com apoio na cultura, no lazer, no estudo, na diversão.… Já perdi e não vai trazer o meu filho de volta. Mas é pelo filho das mães que ainda estão aqui, para que essas crianças não venham a ser tombadas.”

No palco montado na Praça São Lucas, mães de vítimas de outras operações policiais se juntaram a ela e a outras mulheres do Complexo da Penha. Todas exigiram justiça. 

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