Muitas das pessoas mortas provavelmente tinham ligação com a facção. Imagens gravadas por drones da polícia naquele dia mostram homens armados na favela e na mata da Vacaria, uma área arborizada entre o Complexo da Penha e o Complexo do Alemão. As imagens de centenas de câmeras corporais da polícia teriam ajudado a determinar o que realmente aconteceu. No entanto, a Human Rights Watch constatou falhas sistemáticas, incluindo a manipulação dos dispositivos. Os pesquisadores constataram graves falhas na investigação, imagens de câmeras corporais mostrando policiais agredindo detidos, e evidências que sugerem uso excessivo da força e que pessoas foram mortas intencionalmente.
A Operação Contenção foi a operação policial mais letal já documentada da história do Brasil, um país onde as forças policiais matam mais de 6.000 pessoas por ano, sendo que mais de 80 por cento delas são negras. Foi também a mais letal para os policiais, conforme afirmou um coronel da Polícia Militar aos promotores.
Operações policiais em formato militar são comuns nas comunidades do Rio de Janeiro, frequentemente resultando em mortes, principalmente de meninos e jovens. Há décadas, moradores denunciam um ciclo implacável de negligência do Estado aliado à violência policial. Para conter essa violência, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou, em 2022, que a polícia seguisse determinados protocolos operacionais no Rio de Janeiro, incluindo o uso de câmeras corporais, a coordenação de atendimento médico e a preservação dos locais dos tiroteios. Em abril de 2025, o Supremo Tribunal Federal proferiu sua decisão de julgamento de mérito.
Em 28 de outubro de 2025, comandantes e membros das forças policiais violaram esses protocolos repetidamente — e, em alguns casos, deliberadamente.
À medida que a operação avançava por cerca de 15 horas, moradores receberam mensagens e ligações desesperadas de jovens, alguns deles provavelmente armados, na mata da Vacaria. Eles diziam que estavam encurralados, que queriam se render, não queriam morrer. Em seguida, seus telefones ficaram em silêncio.
À medida que a polícia começava a recuar, uma escuridão silenciosa envolveu a mata.
Um policial cruzou com um pequeno grupo de moradores que havia passado o dia tentando, em vão, entrar na mata. “A gente não ia levar nenhum preso porque a gente prende e logo tão tudo na rua”, disse um policial, segundo Tauã Brito da Cruz, cujo filho foi morto naquele dia e que, desde então, tornou-se um rosto público das mães das vítimas que exigem respostas.
“Agora vai lá”, disse ele a Tauã. “Está cheio de corpos.”
Subindo a encosta escura, as mulheres gritavam os nomes de seus filhos, segundo relataram à Human Rights Watch.