Na manhã de 28 de outubro de 2025, centenas de policiais cercaram dois conjuntos no Rio de Janeiro.
Ao anoitecer, a operação se tornaria a mais letal da história do Brasil.
AVISO. Este vídeo contém cenas fortes, incluindo imagens desfocadas de cadáveres. O conteúdo pode ser sensível para algumas pessoas.
122 pessoas foram mortas, incluindo dois adolescentes e cinco policiais.
De acordo com os laudos de necrópsia, mais de 85% das vítimas que não eram policiais eram negras.
O Supremo Tribunal Federal obrigou a polícia do Rio de Janeiro a usar câmeras corporais.
No entanto, apenas 23% dos policiais usavam câmeras no dia. Nenhuma morte foi gravada nas filmagens analisadas pela Human Rights Watch.
Laboratório de Investigações Digitais
A Human Rights Watch teve acesso à investigação do Ministério Público, incluindo 8.800 páginas de documentos, 122 laudos de necrópsia e quase 4.000 horas de gravações de câmeras corporais.
O Ministério Público divulgou as imagens das câmeras corporais usadas neste vídeo. A grande maioria das filmagens às quais
a HRW teve acesso estão sobre sigilo e não podem ser publicadas.
Assistir a todas as imagens 24h por dia, sem nenhuma pausa, levaria quase seis meses para um único pesquisador. Por isso, treinamos diversos modelos de inteligência artificial para nos ajudar a identificar os momentos mais importantes.
Primeiro, precisávamos organizar tudo.
Os modelos, juntamente com um software desenvolvido pela Human Rights Watch, sincronizaram as gravações de diferentes policiais, mapearam suas localizações e identificaram tiros e sinais de manipulação das câmeras.
Depois, criamos uma plataforma com função de busca que nos permitiu visualizar a operação como um único evento coordenado, em vez de milhares de gravações separadas.
O que encontramos foram evidências de frequente manipulação e obstrução das câmeras corporais. E isso acontecia consistentemente no exato momento em que as câmeras deveriam estar gravando: durante prisões, tiroteios ou quando os policiais entravam em residências.
As autoridades disseram que o objetivo da operação era prender suspeitos de tráfico de drogas. As evidências que encontramos apontam para uma operação que parece ter sido concebida para ser letal.
Para explicar como chegamos a essa conclusão, vamos examinar alguns exemplos dos momentos que treinamos nossos modelos de IA para detectar.
A câmera de um policial capturou este vídeo em um beco enquanto um grande grupo de policiais passavam. Em seguida, o policial cobre sua câmera.
Ele ou outro policial então sinaliza que havia uma câmera gravando.
TRECHO DE ÁUDIO [EM PORTUGUÊS]
A equipe tá com câmera. A equipe tá com câmera. Não, não, to falando [inaudível] aquele negócio.
Não está claro por que ele a cobriu, mas o Ministério Público o denunciou por obstruir a câmera.
Essa seria uma visão geral da operação.
Para identificar incidentes como esse em quase 4.000 horas de filmagens de cerca de 500 policiais, treinamos um modelo para detectar momentos semelhantes em que a câmera continuava gravando, mas a lente estava coberta.
Aqui vemos um policial arrombando a fechadura da porta de uma casa. Quando consegue abrir, retira a câmera do corpo por mais de uma hora, provavelmente enquanto está dentro da casa.
Como a câmera ainda estava captando imagens, o nosso software inicialmente não sinalizou essa gravação.
Por isso, treinamos um segundo modelo para identificar “cenas estagnadas”, nas quais a gravação permanece a mesma por longos períodos.
À medida que nossos modelos aprendiam e se aperfeiçoavam, eles revelaram muitas lacunas suspeitas nas gravações.
No final, documentamos mais de 250 casos de obstrução de câmera.
Momentos como esses são exatamente as situações que as câmeras corporais deveriam gravar, ajudando a garantir que qualquer comportamento ilegal seja capturado e que as circunstâncias em torno das 122 mortes possam ser devidamente investigadas.
Outro modelo que utilizamos foi um sistema de IA que analisa o áudio para detectar tiros.
Depois de treiná-lo especificamente para as câmeras corporais da polícia do Rio e para as condições locais, o modelo detectou com sucesso a maioria dos tiros em um conjunto de vídeos de teste.
Também conseguimos usar a IA para extrair texto diretamente dos vídeos, como a data, a hora, o local e o número de identificação do policial que usava a câmera.
Mas uma das descobertas mais marcantes veio do que não vimos.
Apesar da magnitude da operação e do número de mortes, não encontramos nenhuma filmagem mostrando as mortes.
Para entender o que faltava, organizamos as gravações ao longo da operação usando os registros de data e hora das câmeras corporais.
Descobrimos que mais da metade das gravações havia terminado ou apresentava lacunas significativas ao meio-dia. A partir daí, as filmagens utilizáveis continuaram a diminuir, justamente quando a operação se tornou mais letal.
A ausência de filmagens, junto com numerosas evidências de manipulação das câmeras, sugere que as câmeras corporais foram deliberadamente utilizadas de forma indevida para impedir a gravação de mortes.
Ao longo da nossa investigação, a IA foi apenas uma ferramenta entre muitas.
Nossa equipe de pesquisadores entrevistou testemunhas no Rio, visitou o bairro onde os as mortes ocorreram, analisou registros policiais e laudos de necrópsia, verificou fotografias e vídeos e revisou manualmente as descobertas da IA.
O que a IA proporcionou foi velocidade e alcance.
Ela nos ajudou a processar milhares de horas de filmagens, conectar elementos de prova e concentrar nossa atenção onde era mais importante.
Em outras palavras, a IA nos ajudou a encontrar as agulhas em um palheiro gigantesco.
Agora, cabe à justiça brasileira investigar minuciosamente tanto as mortes quanto as decisões que levaram a uma operação tão letal.
Aqueles que usam força desproporcional ou fazem uso indevido de câmeras corporais deveriam ser responsabilizados.
Para saber mais sobre os eventos de 28 de outubro e as conclusões da Human Rights Watch, acesse HRW.org e leia nossa investigação, Uma estratégia de morte.