Aviso: Esta reportagem contém vídeos e
imagens de violência, além de áudios perturbadores.
O conteúdo pode ser sensível para algumas pessoas.

“Uma estratégia de morte”

Investigando a operação policial mais letal do Brasil

Uma investigação da HUMAN RIGHTS WATCH

O sol não tinha nem nascido sobre a cidade do Rio de Janeiro quando 2.500 policiais se preparavam para o dia que teriam pela frente. Enquanto a cidade dormia, eles vestiam os uniformes e verificavam suas armas. Algumas centenas colocaram as câmeras corporais exigidas por lei, muitas com baterias fracas.  

Às 4h da manhã do dia 28 de outubro de 2025, policiais se reuniram na escuridão que antecede o amanhecer. 

“É o momento de nós mostrarmos a nossa força…”, disse um oficial, a um grupo de policiais do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Rio, segundo imagens das câmeras corporais. “Esse momento é que a tropa mostrará a nossa essência... … para que possamos retomar aquele território, e obviamente, impor a força do Estado.” 

Os outros policiais ouviram em silêncio. 

“Todos aqui sabem o que devemos fazer”, concluiu ele.  

Os policiais entraram nos veículos fortemente armados e seguiram em direção ao Complexo da Penha. A missão, no papel, parecia clara: cumprir 100 mandados de prisão contra homens acusados de serem membros do Comando Vermelho, uma das maiores facções criminosas do Brasil.  

Ao final do dia, pelo menos 123 pessoas estariam mortas, incluindo dois adolescentes e quatro policiais. Dessas, a polícia matou dois homens nas primeiras horas da manhã, quando fugiam da operação iminente; as outras 121 pessoas morreram durante a própria operação. Um quinto policial faleceu em decorrência dos ferimentos menos de um mês depois.

An individual lights a candle on Avenida Paulista in São Paulo
Uma pessoa acende uma vela na Avenida Paulista, em São Paulo, Brasil, em 31 de outubro de 2025, em memória das vítimas da Operação Contenção no Rio de Janeiro. © 2025 Allisonsales/picture-alliance/dpa/AP Images

Nenhuma das pessoas mortas constava entre os 51 indivíduos​​ com mandados de prisão citados na principal investigação que motivou a operação. A polícia invadiu muitas casas em todo o Complexo da Penha; no entanto, não entrou na casa da principal liderança do Comando Vermelho na região, conforme informou um delegado da Polícia Civil aos promotores. 

Como parte de uma investigação que durou um ano, a Human Rights Watch entrevistou 41 testemunhas, parentes das vítimas e autoridades. Os pesquisadores também analisaram imagens de câmeras corporais da polícia, laudos de exame de necrópsia, autos do procedimento investigatório criminal, processos judiciais e cerca de 600 vídeos e fotografias. A Human Rights Watch obteve esse material por meio da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, de um grupo de trabalho formado por organizações locais e de pesquisas em fontes abertas. Para determinar o que aconteceu em 28 de outubro de 2025, os pesquisadores da Human Rights Watch analisaram 4.400 horas de gravações das câmeras corporais usadas pelos policiais. Constatamos que nenhuma das mortes foi capturada pelas câmeras.  

4.400 horas

de filmagens de câmeras corporais da polícia

A Human Rights Watch trabalhou em estreita colaboração com o Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos da Defensoria Pública do Rio de Janeiro e com o Projeto Mirante, um projeto de pesquisa da Universidade Federal Fluminense que presta assistência técnica à Defensoria Pública. Depois que a Defensoria Pública forneceu à Human Rights Watch as imagens das câmeras corporais, os pesquisadores da organização utilizaram um software desenvolvido pela própria organização para este projeto, inteligência artificial e revisão de especialistas para analisar as imagens.

122 laudos

de exame de necrópsia das vítimas

A Defensoria Pública forneceu à Human Rights Watch os laudos de exame de necrópsia. Os pesquisadores da Human Rights Watch utilizaram um software desenvolvido pela organização para este projeto, grandes modelos de linguagem e revisão de especialistas para analisar as 2.800 páginas dos laudos de necrópsia de 122 vítimas. O Grupo Independente de Peritos Forenses do Conselho Internacional de Reabilitação para Vítimas de Tortura, composto por 42 especialistas de todo o mundo, realizou uma análise forense dos laudos de necrópsia e de imagens adicionais que mostravam os ferimentos.

Mais de 8,8 mil páginas

da investigação do Ministério Público

Os arquivos, que foram fornecidos pela Defensoria Pública, incluíam depoimentos tanto de policiais quanto de testemunhas, além de informações sobre as prisões e registros hospitalares. Os pesquisadores analisaram esses arquivos, reunindo nomes, datas e outros detalhes importantes. Além disso, os pesquisadores examinaram dezenas de páginas de processos judiciais e documentação adicional obtida por meio de pedidos de acesso à informação.

41 entrevistas

realizadas pessoalmente ou por telefone

Entre outubro de 2025 e setembro de 2026, a Human Rights Watch entrevistou 41 pessoas, incluindo familiares das vítimas, testemunhas, fotógrafos que estavam no local, moradores das comunidades, promotores, defensores públicos e peritos.

Mais de 500

fotografias e vídeos

Os pesquisadores analisaram 579 fotografias e vídeos de diversas fontes; testemunhas e jornalistas; redes sociais; ou coletados por um grupo de trabalho formado pelo Papo Reto, Redes da Maré e Projeto Mirante. Os pesquisadores também analisaram imagens de satélite, mapas, reportagens e mensagens nas redes sociais.

Muitas das pessoas mortas provavelmente tinham ligação com a facção. Imagens gravadas por drones da polícia naquele dia mostram homens armados na favela e na mata da Vacaria, uma área arborizada entre o Complexo da Penha e o Complexo do Alemão. As imagens de centenas de câmeras corporais da polícia teriam ajudado a determinar o que realmente aconteceu. No entanto, a Human Rights Watch constatou falhas sistemáticas, incluindo a manipulação dos dispositivos. Os pesquisadores constataram graves falhas na investigação, imagens de câmeras corporais mostrando policiais agredindo detidos, e evidências que sugerem uso excessivo da força e que pessoas foram mortas intencionalmente.

A Operação Contenção foi a operação policial mais letal já documentada da história do Brasil, um país onde as forças policiais matam mais de 6.000 pessoas por ano, sendo que mais de 80 por cento delas são negras. Foi também a mais letal para os policiais, conforme afirmou um coronel da Polícia Militar aos promotores.

Operações policiais em formato militar são comuns nas comunidades do Rio de Janeiro, frequentemente resultando em mortes, principalmente de meninos e jovens. Há décadas, moradores denunciam um ciclo implacável de negligência do Estado aliado à violência policial. Para conter essa violência, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou, em 2022, que a polícia seguisse determinados protocolos operacionais no Rio de Janeiro, incluindo o uso de câmeras corporais, a coordenação de atendimento médico e a preservação dos locais dos tiroteios. Em abril de 2025, o Supremo Tribunal Federal proferiu sua decisão de julgamento de mérito.

Em 28 de outubro de 2025, comandantes e membros das forças policiais violaram esses protocolos repetidamente — e, em alguns casos, deliberadamente. 

À medida que a operação avançava por cerca de 15 horas, moradores receberam mensagens e ligações desesperadas de jovens, alguns deles provavelmente armados, na mata da Vacaria. Eles diziam que estavam encurralados, que queriam se render, não queriam morrer. Em seguida, seus telefones ficaram em silêncio. 

À medida que a polícia começava a recuar, uma escuridão silenciosa envolveu a mata. 

Um policial cruzou com um pequeno grupo de moradores que havia passado o dia tentando, em vão, entrar na mata. “A gente não ia levar nenhum preso porque a gente prende e logo tão tudo na rua”, disse um policial, segundo Tauã Brito da Cruz, cujo filho foi morto naquele dia e que, desde então, tornou-se um rosto público das mães das vítimas que exigem respostas. 

“Agora vai lá”, disse ele a Tauã. “Está cheio de corpos.”

Subindo a encosta escura, as mulheres gritavam os nomes de seus filhos, segundo relataram à Human Rights Watch. 

Moradores procuram corpos na área da mata do Complexo da Penha após a polícia deixar a região em 28 de outubro de 2025. © Conteúdo cedido pelo Papo Reto. 

O que encontraram foi uma carnificina: dezenas de corpos ensanguentados espalhados pelo chão da mata e caídos sobre pedras. Mais de 60% das vítimas levaram quatro ou mais tiros.

Uma das vítimas, Yago Ravel Rodrigues Rosario, havia sido decapitado. 

Para a comunidade, a operação foi uma chacina. Apesar do elevado número de mortos, que incluiu cinco policiais, o então governador do Rio, Cláudio Castro, comemorou a operação como um “sucesso”. Até o momento da redação deste documento, o Ministério Público havia denunciado 19 policiais, que aguardam julgamento, por invasão de domicílio, furto, manipulação de câmeras corporais, entre outros crimes, mas nenhum por uso ilegal da força. Os comandantes que tomaram as decisões sobre a operação e os comandantes de unidades específicas envolvidas na operação não foram responsabilizados.

A megaoperação

Megaoperation map

Em 28 de outubro de 2025, cerca de 2.500 policiais militares e civis fortemente armados foram mobilizados para o Complexo da Penha, uma comunidade sob o controle do Comando Vermelho. A organização criminosa exerce controle armado sobre territórios na região metropolitana do Rio de Janeiro onde vivem 1,6 milhão de pessoas. 

Autoridades policiais afirmaram que passaram meses planejando a operação, que contou com o apoio de veículos blindados, helicópteros e drones. O objetivo era cumprir 100 mandados de prisão e 145 mandados de busca e apreensão.

Complexo da Penha em maio de 2026. © 2026 Human Rights Watch

Complexo da Penha em maio de 2026. 
© 2026 Human Rights Watch

Sob a tirania do crime organizado
Cerca de 30 por cento da população da região metropolitana do Rio de Janeiro reside em áreas controladas por facções criminosas ou milicias, de acordo com um estudo do GENI/UFF e do Fogo Cruzado. Esses grupos cobram taxas sobre bens e serviços e impõem impiedosamente suas próprias regras aos moradores. A presença do Estado nessas áreas é mínima ou inexistente.

Uma dessas áreas é o Complexo da Penha, um extenso conjunto de favelas. Pessoas negras que fugiram da escravidão no século XIX fundaram no local o Quilombo da Penha, que deu origem ao Complexo da Penha, onde muitos de seus descendentes ainda vivem hoje. 

As autoridades do Rio de Janeiro há muito combatem grupos criminosos por meio de operações policiais letais nas favelas. Essa estratégia fracassou. Desde 2007, a área controlada pelo crime organizado na região metropolitana do Rio cresceu 130%. 

Por volta da 1h da madrugada de 28 de outubro, um grupo de pessoas tentou deixar a região em motocicletas; policiais militares teriam matado duas pessoas em um suposto tiroteio. 

Fumaça se espalha sobre o Complexo da Penha em 28 de outubro de 2025, depois que membros da facção criminosa incendiaram pneus e carros para impedir o avanço da polícia. © 2025 Fonte: Fonte desconhecida | Detentor dos direitos, por favor, entre em contato. 

Nas horas seguintes, unidades policiais que entravam no Complexo da Penha por distintos pontos encontraram resistência armada e barricadas. Drones sobrevoavam a região. A fumaça sufocava o ar enquanto membros do Comando Vermelho queimavam pneus. Tiros ecoaram quando os policiais entraram em confronto com homens e adolescentes armados, alguns dos quais portavam armas semiautomáticas e usavam coletes à prova de balas. 

No final da manhã, unidades policiais cercaram homens e adolescentes na mata da Vacaria, uma área arborizada na Serra da Misericórdia, um morro acima do Complexo da Penha que membros da facção usaram para escapar de anteriores operações policiais. Mas, desta vez, aqueles que fugiram para a mata da Vacaria ficaram encurralados, sem poder retornar facilmente à área urbana do Complexo da Penha, onde outras unidades policiais haviam se posicionado.

No topo do morro, o Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) estava em uma posição que chamaram de “muro do BOPE”, uma linha de policiais encarregada de impedir que pessoas armadas fugissem para o Complexo do Alemão. 

A operação sofreu uma reviravolta dramática quando policiais civis foram baleados na base da mata da Vacaria. Como resultado, o comandante do BOPE ordenou que seus policiais descessem do topo do morro para ajudar. Quatorze policiais foram baleados e hospitalizados naquele dia, de acordo com documentos da investigação e registros hospitalares, sendo que todos, exceto um, foram internados até as 13h30. Quatro policiais morreram, e mais um viria a falecer nas semanas seguintes. 

cf6c4566-b860-48af-a250-8b0fd4de9956
O Batalhão de Operações Policiais Especiais, ou BOPE, é uma unidade de elite da Polícia Militar do Rio de Janeiro que rotineiramente usa força letal contra suspeitos. Sua insígnia é um crânio com uma faca e duas pistolas cravadas. © Richard Nunes / Wikimedia Commons

O Ministério Público suspeita que, por volta do meio-dia, depois que a polícia sofreu baixas, a operação se transformou em uma operação vingança – uma operação letal para vingar a morte de um companheiro –, algo comum no Rio e em outros lugares no Brasil.

Ao final do dia, as forças policiais haviam matado dezenas de pessoas na comunidade, principalmente na Mata da Vacaria.  

A polícia prendeu 99 pessoas, aparentemente todas na área urbana da comunidade. Muitas delas aparecem nas imagens das câmeras corporais; moradores testemunharam ou filmaram com seus celulares algumas das prisões.

Embora um delegado da Polícia Civil tenha dito ao Ministério Público que “alguns” suspeitos se entregaram e foram presos na mata, não há registro dessas supostas prisões na investigação do Ministério Público, à qual a Human Rights Watch teve acesso em maio. 

Um promotor disse aos pesquisadores que a polícia não realizou nenhuma prisão na mata da Vacaria. Um delegado da Polícia Civil que participou da operação também disse aos pesquisadores da Human Rights Watch que na mata “não houve presos porque fugiram ou porque resistiram [à polícia]... Provavelmente não houve presos na mata por conta de ser o epicentro do confronto”. Os únicos sobreviventes na mata da Vacaria foram os poucos que se esconderam, disseram moradores da comunidade. 

À medida que o sol se punha sobre a mata naquele dia, a polícia recolhia os corpos, empilhando-os em veículos blindados. Enquanto filmava os cadáveres, um policial brincou sobre o quanto ele gostava de matar. 

Os policiais deixaram outros corpos espalhados dentro e ao redor da mata da Vacaria. Por volta das 20h, os policiais desceram da mata e deixaram o Complexo da Penha. Só então os familiares puderam procurar seus entes queridos.

Na escuridão, homens e mulheres iluminavam os rostos das vítimas com as lanternas de seus celulares e carregavam seus corpos por entre as árvores. Os moradores, sujos de terra e do sangue de seus familiares, levaram os corpos até a Praça São Lucas, no Complexo da Penha. Pessoas retiraram as roupas táticas ou de camuflagem de algumas das vítimas. No asfalto, 62 corpos foram colocados lado a lado. 

Câmeras corporais: manipulação intencional, obstrução e negligência por parte da polícia

Uma lei estadual de 2021 estabeleceu que o estado deve assegurar o uso de câmeras corporais “com capacidade de registrar tudo o que o agente vê, ouve, fala e faz”. Em 2022, uma decisão do Supremo Tribunal Federal obrigou o estado do Rio de Janeiro a adotar um plano para reduzir as mortes causadas pela polícia que exige que policiais usem câmeras corporais. Um protocolo da Polícia Militar de 2025 determina que policiais devem usá-las “em situações de oposição à atuação policial, de potencial confronto ou de uso de força física”.

Durante a Operação Contenção, isso não aconteceu.

A Human Rights Watch analisou 4.400 horas de filmagens de câmeras corporais de 527 policiais, utilizando inteligência artificial (IA) para identificar momentos-chave e possíveis manipulações visíveis nas filmagens, com uma subsequente revisão manual pelos pesquisadores de cada momento sinalizado pela IA.

A Human Rights Watch encontrou evidências de que policiais manipularam e obstruíram as câmeras corporais ao: deixar as câmeras ligadas antes da operação, na prática esgotando as baterias; cobrir as lentes; remover as câmeras e colocá-las em locais onde não captassem as ações dos policiais; e deixar as câmeras nos veículos durante a operação. 

A Human Rights Watch constatou que tais interferências ocorriam sistematicamente em momentos-chave: durante prisões, tiroteios ou quando os policiais entravam em residências. A maioria dessas interferências foi observada em câmeras usadas por policiais de unidades que participavam na linha de frente da operação.

Exemplos de possíveis obstruções de câmera corporal
 
Suspeita de interferência intencional

A câmera foi coberta pela mão de um policial, removida ou colocada em um bolso ou mochila durante a operação. A intencionalidade é considerada suspeita quando isso durou mais de 20 minutos ou coincidiu com circunstâncias suspeitas, como tiros captados pelo áudio da câmera, o policial entrando em uma residência ou policiais sendo vistos fazendo gestos ou discutindo sobre a câmera antes do ocorrido.

 

Câmera removida ou deixada no veículo

Em outros casos, a intenção dos policiais não ficou clara, mas eles podem ter violado o protocolo ao remover temporariamente suas câmeras corporais durante a operação. Durante esse período, as atividades dos policiais não ficaram visíveis. 

Apesar das decisões do Supremo Tribunal Federal, apenas cerca de 23% dos 2.500 policiais que participaram da operação usavam câmeras corporais, informou o governo do Rio de Janeiro. A Polícia Militar disse aos pesquisadores da Human Rights Watch que em outubro de 2025 possuía 15.000 câmeras corporais, seis vezes mais que o número de policiais que participaram da operação. Em um documento enviado ao Supremo Tribunal Federal, o governo do Rio alegou que problemas técnicos impediram o uso de dezenas de câmeras no dia da operação. 

A Polícia Militar enviou à Defensoria Pública do Rio de Janeiro 4.400 horas de filmagens registradas por 532 câmeras atribuídas a 527 policiais, que foram analisadas pela Human Rights Watch. Até o momento da redação deste documento, a Defensoria Pública não havia recebido nenhuma filmagem das 62 câmeras que, segundo informações disponíveis, os policiais civis usaram. 

Apesar de afirmar que a operação havia sido planejada há meses, o secretário da Polícia Militar do Rio de Janeiro disse à imprensa que as baterias das câmeras podem ter acabado antes do fim da operação. O protocolo da Polícia Militar especifica que policiais devem verificar se as câmeras têm pelo menos 95 por cento de bateria antes de usá-las e devem levar uma bateria extra quando escalados em serviços por períodos maiores que 12 horas. Esse é o tempo de duração esperado da bateria, embora um policial tenha dito a promotores que baterias mais antigas se esgotam mais rápido e outros policiais tenham dito à Human Rights Watch que gravações no modo ocorrência, de alta resolução, podem consumir mais bateria. Em depoimentos aos promotores, os comandantes do BOPE admitiram que, embora o BOPE tivesse 14 baterias extras, eles não levaram nenhuma para a operação. 

O protocolo da Polícia Militar para o uso de câmeras corporais também estabelece que os policiais só podem remover as câmeras em determinadas circunstâncias.

1c3fe2c9-79b5-49a7-b281-11675b69d3ba

Os policiais só podem interromper a gravação das câmeras ao trocar a bateria, procedimento que deve ser realizado em dois minutos, informou a Polícia Militar à Human Rights Watch. Dos 305 policiais pertencentes a batalhões de linha de frente dos quais a Human Rights Watch possui imagens, 55 por cento das gravações terminam ou apresentam uma lacuna significativa no material por volta do meio-dia, quando a operação se tornou mais violenta. Isso indica que a maioria das gravações terminou prematuramente. O tempo médio de gravação dos policiais da linha de frente foi de 6 horas e 38 minutos, bem abaixo da duração de 12 horas da bateria.

As razões para a falta de gravações não estão claras. Mas o resultado é claro: não há nenhuma gravação disponível mostrando quaisquer mortes ocorridas naquele dia. 

0e072833-3629-4aca-b33c-6235ee69c7ef

Além das imagens ausentes, a Human Rights Watch identificou 278 casos entre 132 policiais da linha de frente nos quais houve obstruções às câmeras, com os policiais removendo ou cobrindo as câmeras corporais.

Os 278 casos incluem situações em que a Human Rights Watch não conseguiu determinar a intenção dos policiais, mas que podem ter violado o protocolo devido à remoção das câmeras corporais durante a operação, 35 casos; ou ao fato de tê-las deixado nos veículos, 97 casos, resultando na invisibilidade das atividades dos policiais. Os 146 casos restantes envolvem suspeita de manipulação intencional por meio da remoção das câmeras ou do encobrimento das lentes. 

d9797711-9260-4e83-a38a-9e3263e342bb

A unidade de linha de frente com o maior número de imagens ausentes foi o BOPE, o batalhão alocado para a mata da Vacaria, onde ocorreu a maioria das mortes. Nenhuma das imagens dos 49 policiais do BOPE analisadas pela Human Rights Watch capturou a operação após as 12h11. Apesar dessa falta de imagens, os pesquisadores identificaram 26 casos em que policiais possivelmente manipularam ou removeram as câmeras. Por meio do uso de IA e da análise manual subsequente, os pesquisadores determinaram que 36 por cento dos tiros ouvidos nas câmeras do BOPE ocorreram durante o período em que as câmeras estavam obstruídas. 

9717a4cd-ac82-4ac3-bc27-e9d84dadb35e

Um promotor confirmou à Human Rights Watch em setembro de 2026 que, embora haja imagens de tiroteios envolvendo a polícia, não há gravações de nenhuma pessoa sendo morta.

As câmeras corporais registraram uma conversa entre policiais do Batalhão do Choque na qual eles expressaram frustração pelo fato de as câmeras os impedirem de matar suspeitos, reclamando que aqueles que fossem presos seriam simplesmente soltos pelo poder judiciário.

As câmeras corporais não impediram que policiais cometessem abusos contra detidos. Pouco depois das 10h, em um dos vários casos analisados pela Human Rights Watch, a gravação da câmera corporal de um policial do Batalhão de Choque mostra dois policiais entrando em um cômodo de uma casa que a Human Rights Watch geolocalizou perto da mata da Vacaria. Os policiais encontraram um adolescente dormindo em uma cama. A Human Rights Watch verificou sua idade – 16 anos – e seu nome comparando as imagens da câmera corporal com registros oficiais. Um sargento do Batalhão de Choque deu um soco no rosto do menino e o jogou no chão. Embora ele parecesse estar desarmado, os policiais encontraram roupas de camuflagem, uma pistola e um rádio portátil em outro local do quarto. Um policial disse: “Vai morrer”. 

Mais tarde, o policial perguntou ao adolescente: “ O que você tem para dar pra gente?” e o adolescente respondeu: “Me mata não”, e ofereceu seu celular e outros aparelhos aos policiais. Os policiais então ordenaram que ele desse informações sobre a organização criminosa.

Em um vídeo compartilhado online e verificado pela Human Rights Watch, um grupo de homens que estava dentro de uma casa a centenas de metros de distância do adolescente detido fez com que uma moradora os gravasse enquanto deixavam as armas e se rendiam. “Sem esculacho, a tia tá filmando ai”, pediram aos policiais, sempre reforçando para a mulher seguir filmando tudo. 

b9f04365-bebc-4c9d-ac85-3e8f2970e43a

Graves falhas na investigação

Ao longo da Operação Contenção, a polícia violou sistematicamente os procedimentos determinados pelo Supremo Tribunal Federal e seus próprios protocolos internos, em favor de uma operação que parece ter sido concebida para ser letal.

A conduta da polícia também violou as obrigações internacionais de direitos humanos do Brasil, que determinam que as autoridades garantam investigações imediatas, eficazes e independentes de todas as mortes causadas por forças de segurança.

A polícia informou ao Ministério Público que passou meses planejando a operação, que aconteceria num território que um chefe da Polícia Civil descreveu como “talvez o mais hostil do Brasil para se operar”, onde esperavam confronto e vítimas. No entanto, Alexandre Herdy Barros Silva, diretor do Departamento Geral de Homicídios e Proteção Pessoal, órgão responsável por registrar e investigar quaisquer homicídios, só tomou conhecimento da operação em uma conversa informal uma semana antes e não tomou nenhuma providência em preparação, conforme relatou aos promotores. 

No final da manhã de 28 de outubro, horas após o início da operação, Herdy convocou as “equipes de cena de crime”, incluindo peritos criminais, para a Cidade da Polícia, a cerca de quatro quilômetros do Complexo da Penha, mas as equipes nunca foram enviadas ao local da operação. 

No final do dia, quando começou a escurecer, o BOPE recolheu os corpos de 33 vítimas, supostamente da região da mata, de acordo com documentos oficiais.

A Human Rights Watch verificou uma fotografia e três vídeos aparentemente gravados por policiais, mostrando policiais recolhendo os corpos das vítimas e comprometendo provas sem a presença de peritos. Os pesquisadores conseguiram identificar duas das vítimas nos vídeos.

Em uma fotografia, tirada por volta do anoitecer de 28 de outubro e geolocalizada pela Human Rights Watch em uma pedreira próxima à mata da Vacaria, policiais estavam ao lado de pelo menos 19 corpos deitados no chão em duas fileiras, próximos a um “caveirão”, um veículo blindado da polícia. Algumas vítimas usavam roupas de camuflagem. Duas vítimas tinham as calças e a roupa íntima abaixadas, expondo seus órgãos genitais. Três vídeos verificados mostram os corpos empilhados dentro do veículo e policiais fazendo comentários sádicos. “Aí, que delícia”, disse um policial. “A gente gosta disso”.

A polícia levou os corpos para outro local, onde, novamente, não havia peritos presentes, e os entregou à Defesa Civil, que os levou para o IML.

Mas, como os corpos haviam ficado no chão por horas sob clima tropical, muitos já estavam em decomposição quando os peritos legistas realizaram as autópsias, dificultando a determinação das circunstâncias da morte, de acordo com os laudos de exame de necrópsia. 

Comandantes afirmaram posteriormente que os policiais não puderam preservar nenhum dos locais porque enfrentaram ataques armados e não conseguiram isolar o perímetro para que os peritos pudessem entrar. A Polícia Civil não realizou perícia no local de nenhuma das mortes, inclusive nos casos em que as pessoas foram mortas dentro de residências, locais que a polícia poderia ter isolado mais facilmente para as equipes de perícia. Também não parece ter havido análise do local dos fatos no caso das mortes de dois homens que fugiram e foram mortos perto da estação de trem de Bonsucesso, fora da favela.

A Polícia Civil também não enviou peritos à Praça São Lucas, onde moradores da comunidade colocaram os corpos que retiraram da mata. Lá, os peritos poderiam ter tirado fotografias e coletado provas, incluindo amostras de resíduos de pólvora.

Firemen lift bodies recovered from the nearby forest in Saint Luke Square in Complexo da Penha
Bombeiros carregam corpos na Praça São Lucas, que foram retirados da mata da Vacaria, no Complexo da Penha, em 29 de outubro de 2025. © 2025 Wagner Meier/Getty Images

A conduta das polícias durante a operação violou a legislação brasileira e as decisões do Supremo Tribunal Federal, que estabelecem que, em casos de mortes causadas pela polícia, os policiais devem preservar o local até a chegada de peritos para examinar as provas. A conduta das polícias também violou normas internacionais. Um decreto estadual atribui à Defesa Civil a responsabilidade pela remoção dos corpos, após a análise forense. 

No entanto, a polícia frequentemente desrespeita essas obrigações, levando vítimas já mortas para hospitais, alegando posteriormente que elas estavam vivas e que eles estariam prestando socorro.

Esses “falsos socorros” destroem evidências no local e dificultam a perícia. Essa prática é tão generalizada que, em 2025, o Supremo Tribunal Federal ordenou que o estado do Rio de Janeiro tomasse medidas para impedir a “remoção indevida de corpos sob o pretexto de suposta prestação de socorro”. 

Apesar das ordens do tribunal, durante a Operação Contenção, a polícia retirou dezenas de corpos, enquanto deixava outros na mata sem tomar qualquer providência para sua remoção.

8644cd30-e489-41a3-8285-63dcb3d3f58b

Registros do Hospital Getúlio Vargas no dia 28 de outubro mostram que a polícia e outras pessoas levaram ao hospital 26 pessoas mortas ou que morreram posteriormente no hospital, incluindo quatro policiais. Outro policial faleceu menos de quatro semanas depois, em outro hospital. Policiais e outras pessoas levaram ao hospital 21 pessoas feridas que sobreviveram.

Policiais

Das 26 vítimas mortas no hospital, a polícia levou pelo menos 16 das vítimas que não eram policiais, de acordo com os registros hospitalares. As 16 chegaram já sem vida ao hospital. Outras nove vítimas feridas foram levadas ao hospital, mas a equipe do hospital e a Polícia Civil lotada no local não registraram quem as trouxe.

A Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE), uma unidade de operações especiais da Polícia Civil, levou pelo menos quatro corpos ao hospital. Posteriormente, Herdy, diretor do Departamento Geral de Homicídios e Proteção Pessoal, disse que a CORE afirmou ter simplesmente “encontrado os corpos”. Uma das vítimas era um homem de 28 anos que havia sido baleado à curta distância, de acordo o exame de necrópsia. No dia 3 de novembro, um boletim de ocorrência relata a ausência de “informações” sobre a hora da morte e que não havia “testemunhas”.

Herdy disse aos promotores que, embora “quatro ou cinco” policiais da Polícia Civil tenham sido enviados ao hospital, em alguns casos eles não registraram os nomes dos policiais que estavam entregando os corpos, nem coletaram declarações preliminares sobre onde, quando e como as vítimas foram mortas. Na verdade, a Polícia Civil coletou essas informações de apenas duas das 117 vítimas não policiais mortas durante a operação. Essa falta de dados básicos continua a dificultar a investigação em andamento, disse um promotor à Human Rights Watch. Isso também contradiz o Protocolo de Atuação para Investigações de Mortes por Intervenção de Agentes do Estado que Herdy assinou em 5 de maio de 2025, menos de seis meses antes da operação ter ocorrido. 

b732822b-0963-48c6-816e-166d91d62c40

No entanto, em resposta a um pedido de acesso à informação, a Polícia Civil informou à Human Rights Watch que não observou “indícios de descumprimento” do protocolo. A corregedoria da Polícia Civil também afirmou que não há investigações disciplinares contra nenhum policial civil relacionadas à Operação Contenção, exceto por um caso de suposta agressão contra um detido.

Em resposta a outro pedido de acesso à informação, a Polícia Militar informou à Human Rights Watch que havia aberto dois processos administrativos disciplinares contra praças (policiais de patente de soldado até subtenente) por conduta durante a operação, além de um inquérito policial militar por crimes previstos no Código Penal Militar, sem especificar o motivo. 

People on a stage holding a press conference
Os secretários da Polícia Militar, da Polícia Civil e de Segurança Pública do Rio de Janeiro participam de uma coletiva de imprensa em 29 de outubro de 2025, em frente às armas que, segundo eles, foram apreendidas durante a operação. © 2025 Tomaz Silva/Agência Brasil

A polícia também não manteve uma cadeia de custódia rigorosa das 118 armas que afirmou ter apreendido. As armas deveriam ser mantidas em sacos lacrados e enviadas para análise pericial de impressões digitais e balística. Em vez disso, a polícia apresentou as armas sem embalagem em uma coletiva de imprensa. Reportagens de televisão mostraram policiais e até mesmo repórteres manuseando armas e outros equipamentos apreendidos sem luvas. 

A polícia matou pessoas ilegalmente?

Embora 117 homens e adolescentes tenham sido mortos durante a Operação Contenção, além de cinco policiais, apenas sete pessoas foram feridas por tiros, levadas ao hospital e, em seguida, detidas pela polícia, segundo mostram os registros hospitalares.

A proporção entre pessoas mortas e feridas e posteriormente presas — quase 17 para 1 — é o oposto do que se esperaria de uma força policial que tem o dever de proteger a vida das pessoas. A legislação brasileira, o Supremo Tribunal Federal e o direito internacional permitem que os agentes de segurança pública utilizem força letal intencionalmente apenas quando for inevitável, proporcional e estritamente necessário para a proteção de vidas. 

Em um caso, gravado por uma câmera corporal às 10h12, um policial disse aos policiais do Batalhão de Choque que estavam detendo um grupo de homens que deixaram suas armas em uma casa e saíram desarmados para se render: “Ó, quem correr, atira nas pernas”. 

Mas a análise dos laudos de exames de necrópsias, incluindo a quantificação do número e da localização dos ferimentos de entrada por projéteis de arma de fogo, sugere que os policiais não estavam tentando simplesmente imobilizar as pessoas. Em vez disso, os resultados das necrópsias sugerem que a polícia usou força excessiva e tinha a intenção de matar. De acordo com peritos do Grupo Independente de Especialistas Forenses do Conselho Internacional de Reabilitação para Vítimas de Tortura (Independent Forensic Expert Group of the International Rehabilitation Council for Torture Victims), consultados pela Human Rights Watch, as evidências—incluindo o número de vezes que cada vítima foi baleada e o elevado número de tiros na cabeça—sugerem que muitas foram atingidas e mortas intencionalmente. Em muitos casos, a trajetória dos ferimentos a bala foi de baixo para cima, o que pode ser indicativo de execução, como quando um indivíduo é baleado enquanto está deitado ou de alguma forma incapacitado.

Parentes das vítimas questionaram se algumas delas teriam sido mortas ilegalmente. Em depoimento ao Ministério Público, uma mulher disse que seu filho de 23 anos ligou para ela por volta das 14h, informando que estava perto da mata e precisava de ajuda para se entregar. Segundo ela, “ele estava com muito medo porque os outros rapazes que estavam junto com ele e que haviam se entregado para a polícia haviam sido mortos”. Essa foi a última vez que ela teve notícias do filho, que foi morto.

Tauã Brito da Cruz contou à Human Rights Watch que um jovem se aproximou dela no funeral de seu filho de 20 anos, Wellington Brito Santos. Ele disse que estava na mata e sobreviveu “fingindo estar morto”, lembrou ela. O jovem descreveu que “drone passava por cima sobrevoando o mato e onde tinha gente o caveirão chegava e matava”, segundo Brito.

“Eles entraram para executar”, disse Brito. “Foi uma estratégia de morte.”

Em uma coletiva de imprensa no dia seguinte à operação, o então secretário da Polícia Civil, encarregado de conduzir uma investigação independente sobre as mortes, afirmou que todas as pessoas mortas eram criminosas. De acordo com a lei, a filiação a grupos criminosos ou condenações criminais anteriores, por si só, não justificam o uso excessivo da força ou execuções extrajudiciais. 

Embora os perfis nas redes sociais de muitas das vítimas sugiram apoio ou afiliação ao Comando Vermelho, a Human Rights Watch não tentou confirmar nem refutar a filiação ao crime organizado; em vez disso, os pesquisadores se concentraram em como as vítimas foram mortas. 

A morte de uma vítima tem sido alvo de especial atenção. As evidências sugerem que a polícia pode ter matado ilegalmente Ronaldo Julião da Silva, de 46 anos, que, segundo moradores da comunidade, não era membro da facção e aparentemente estava desarmado quando foi morto. A Human Rights Watch analisou o laudo de exame de necrópsia do Ronaldo e entrevistou um parente. Uma testemunha teria visto a polícia atirar em Ronaldo enquanto ele mantinha as mãos para cima e, em seguida, arrastar seu corpo para um beco. De acordo com o laudo da necrópsia, ele foi atingido nas costas, na axila esquerda, na mão esquerda e duas vezes no rosto. 

photo of a shirtless man walking down a street
© Privado

“O Estado veio, matou e deixou o corpo para a gente catar”, disse Juliana Conceição, que afirmou querer que a polícia “reconheça que errou”.

Outra vítima, Yago Ravel Rodrigues Rosario, de 19 anos, foi decapitado após levar um tiro na região lombar. Moradores encontraram seu corpo na mata e sua cabeça encostada em uma árvore. Seus ferimentos sugerem que ele foi decapitado com uma lâmina grande, como um facão. Embora nenhum facão constasse na lista de armas usadas pela polícia naquele dia, nem entre as armas apreendidas, pesquisadores verificaram um vídeo que mostra um policial no Complexo da Penha com um facão amarrado nas costas no dia da operação. 

87ad288c-805c-4d24-b1e0-82f0f3501bb2
© 2026 Human Rights Watch

“Para que decapitar o menino, para que tanta crueldade?”, perguntou Rakhel Rios.  

Tauã Brito da Cruz também busca respostas sobre a morte do seu filho. 

À 1h da manhã de 29 de outubro, ela encontrou Wellington Brito Santos deitado de barriga para cima perto de uma escadaria que levava à mata. Ele estava cercado pelo que ela estimou serem 20 corpos. De acordo com o laudo de exame de necrópsia, Wellington levou cinco tiros: na região lombar à esquerda, no lado direito da cabeça, no ombro esquerdo, no braço esquerdo e no cotovelo esquerdo.

Um drone da polícia o havia filmado subindo as escadas na manhã do dia 28 de outubro, aparentemente portando uma arma. Sua mãe disse que encontrou o corpo com as mãos amarradas à frente com um tecido preto. A Human Rights Watch não conseguiu determinar quando ou por que suas mãos foram amarradas.

Imagens da mão esquerda de Wellington Brito Santos; sua mãe diz que o corpo foi encontrado com o tecido preto enrolado nos pulsos, em 29 de outubro de 2025.  © Imagem cedida por Tauã Brito da Cruz.

“As pessoas zombam [da morte dele], dizendo: ‘Bem feito, bandido bom é bandido morto’”, disse Brito. “Mas por que só o da favela não merece outra chance?”

“Nada mudou”

Pesquisadores da Human Rights Watch visitaram o Complexo da Penha seis meses após a Operação Contenção. 

Os moradores disseram que o Comando Vermelho, que recruta meninos e jovens, continuava com o controle da região. 

“Toda hora tem guerra de facção. Os meninos vão morrendo e o chefão [do tráfico] fica vivo. Eles morrem e no mesmo dia entra outro”, disse à Human Rights Watch uma mãe em luto, cuja identidade estamos preservando por motivos de segurança. “Onde o Estado não está presente, o tráfico se faz presente. O Estado entra para matar e não para dar algo diferente”. 

Um líder comunitário do Complexo da Penha pediu investimento do Estado em educação, esporte e serviços sociais para oferecer aos meninos e jovens reais alternativas de vida. Sem investimento social, o ciclo continua. 

“Há violação de direitos pelos dois lados, pela polícia e pelos traficantes de drogas”, disse o líder comunitário.

A woman holds up a shirt with a message in Portuguese on it during a protest
Ativistas e moradores participam de um protesto no Complexo da Penha, no Rio de Janeiro, em 31 de outubro de 2025, para exigir justiça pelas vítimas da Operação Contenção. © 2025 Pablo PORCIUNCULA / AFP via Getty Images

Debora Moreira Lemos, de 41 anos, cresceu em uma favela. Quando era pequena, ela se escondia, apavorada, no armário quando a polícia aparecia. 

“Tenho visto operações [policiais] como essa a vida inteira”, disse ela. “Nada mudou”.

O filho de Debora, Gabriel Lemos Vasconcelos, de 23 anos, morreu na operação de outubro de 2025. Na época, ela não sabia que o filho estava envolvido com o crime organizado. “Ele estava escondendo isso”, disse ela, acrescentando que o filho havia contado a um parente que esperava deixar o crime até o final do ano para estudar. 

Mas ele nunca teve essa oportunidade. Moradores da comunidade encontraram o corpo de Gabriel na mata. Ele foi baleado quatro vezes, nas costas, no rosto e no peito. A escassez de provas impossibilitou a Human Rights Watch de determinar as circunstâncias de sua morte. 

“As pessoas têm medo”, disse Debora, “mas as mães querem justiça”.

À noite, Debora fica em pé junto à janela da sala, contemplando a cidade que se estende à sua volta, toda iluminada. É uma cidade que ela considera seu lar a vida toda, o único lugar que seus filhos conhecem. E é onde a vida do seu filho terminou, morto na operação policial mais letal já documentada da história do Brasil. 

“Eu me pergunto: ‘por quê?’”

a woman looks out of her apartment window
Debora Moreira Lemos olha pela janela de sua casa no Rio de Janeiro, em abril de 2026. © 2026 Human Rights Watch

A necessidade de justiça

As autoridades brasileiras deveriam garantir uma investigação rápida, completa e independente de cada uma das mortes. Deveriam também investigar o planejamento e as decisões que resultaram nessa operação, que foi tão letal para as vítimas policiais e não policiais. O Ministério Público Federal e o Ministério Público do Rio de Janeiro deveriam instaurar procedimentos criminais e civis para investigar os responsáveis, incluindo autoridades, bem como comandantes da Polícia Militar e da Polícia Civil. O Ministério Público Federal e o Ministério Público do Rio de Janeiro também deveriam instaurar procedimentos para investigar a Polícia Militar e a Polícia Civil pela violação de decisões do Supremo Tribunal Federal, da legislação brasileira e dos próprios protocolos das forças policiais sobre o uso proporcional da força, o uso de câmeras corporais e a preservação do local, além de outros procedimentos em casos de mortes decorrentes de operação policial.

Este caso também destaca a urgente necessidade de que o novo governador do Rio de Janeiro, que assumirá o cargo em 6 de janeiro, apresente um projeto de lei para separar a perícia da Polícia Civil e invista em análises periciais independentes e de alta qualidade, que são um elemento fundamental de qualquer investigação criminal, não apenas daquelas relacionadas a mortes decorrentes de operação policial.  
 

 


Agradecimentos

Agradecemos às muitas pessoas que conversaram com a Human Rights Watch e compartilharam suas experiências, dados e evidências. Em especial, queremos agradecer aos familiares das pessoas mortas, que passaram horas conversando conosco enquanto enfrentavam a dor da perda de seus entes queridos. Também somos muito gratos a André Castro e Ana Carol Lucas Leite, da Defensoria Pública do estado do Rio de Janeiro; Flávia Palladino e Cássio Thyone Almeida de Rosa, do Projeto Mirante; James Lin e Rohini Haar, do Grupo Independente de Especialistas Forenses; Thainã de Medeiros, do Papo Reto, e Lorena Martins e toda a a Rede de Atenção a Pessoas Afetadas pela Violência de Estado (RAAVE), bem como aos membros da Redes da Maré.  

Sophia Jones, pesquisadora do Laboratório de Investigações Digitais da Divisão de Tecnologia e Direitos Humanos; César Muñoz Acebes, diretor da Human Rights Watch no Brasil; e Damir Khairat, pesquisador da Divisão de Tecnologia e Direitos Humanos, escreveram este documento. Sophia Jones e César Muñoz Acebes conduziram pesquisas e análises no Rio de Janeiro e remotamente, e Damir Khairat desenvolveu ferramentas tecnológicas para analisar grandes volumes de documentos e dados. 

Andrea Carvalho, pesquisadora no Brasil, e Carina Abreu, estagiária no Brasil, contribuíram com a pesquisa. Brian Root, consultor sênior e analista quantitativo da Divisão de Tecnologia e Direitos Humanos, forneceu a análise de dados. Ekin Ürgen, assistente de pesquisa, e Léo Martine, analista geoespacial sênior — ambos da Divisão de Tecnologia e Direitos Humanos — contribuíram com a pesquisa e a análise geoespacial. Joseph Saunders, Juanita Goebertus Estrada, Sam Dubberley, Gabi Ivens, Clive Baldwin, Gerry Simpson, Mark Hiznay, Anna Bacciarelli, Margaret Wurth, Julia Bleckner e Etienne Maynier revisaram a investigação. Um membro do Departamento de Comunicação forneceu a direção de arte e o desenvolvimento, com o apoio de Travis Carr, Win Edson, Malena Seldin, Ivana Vasic e Matteo Bettini. Renata Escudero deu apoio à coordenação. Desenvolvimento web por Christina Rutherford. Edição por Mya Guarnieri.