Jean Emmanuel Biriko (direita), conhecido como Manoti, em julgamento por suposta participação nos sequestros em Rutshuru, no leste do Congo. Ele foi condenado à morte em maio de 2015. Sequestros continuaram na região mesmo após sua prisão. 15 de abril de 2015.

© 2015 Private

(Goma) - Pelo menos 175 pessoas foram sequestradas com pedido de resgate em 2015 na República Democrática do Congo, afirmou a Human Rights Watch. Antigos e atuais membros de grupos armados são supostamente responsáveis por muitos dos sequestros.

A grande maioria dos casos documentados pela Human Rights Watch ocorreram no território de Rutshuru, na província de Kivu do Norte, na parte oriental do país. Pelo menos três reféns foram mortos, enquanto outro foi morto a tiros em uma tentativa de sequestro. Um outro continua desaparecido. Quase todos os reféns foram libertados depois de familiares ou empregadores terem pago pelo resgate. Vinte das vítimas eram trabalhadores humanitários congoleses e internacionais.

"O aumento alarmante de sequestros é uma grave ameaça para a população do leste do Congo", disse Ida Sawyer, pesquisadora sênior para África na Human Rights Watch. "Autoridades congolesas devem estabelecer urgentemente uma unidade de polícia especial para ajudar a resgatar reféns e investigar e processar os responsáveis".

A Human Rights Watch entrevistou 45 pessoas que foram reféns e testemunhas em Kivu do Norte entre maio e dezembro. Elas disseram que os sequestradores normalmente operam em grupos de doze ou mais pessoas, e muitas vezes estão fortemente armados com Kalashnikovs e outras armas militares. Muitos usam roupas militares e parecem pertencer ou ter pertencido a um dos vários grupos armados ativos no leste do Congo.

Esses sequestradores têm, em geral, operado de forma similar: batendo, espancando, ou ameaçando os reféns de morte, exigindo que eles liguem para seus familiares ou empregadores para exigir o pagamento de resgate. Os sequestradores têm frequentemente usado telefones celulares das vítimas ou seus próprios para negociar os pagamentos. Por vezes, os sequestradores sequestraram um único refém, e em outros casos, um grupo.

Em um exemplo, em 2 de setembro, homens armados sequestraram uma estudante de 27 anos perto do hospital geral de Goma e a levaram para um local remoto em meio à floresta, onde ela foi mantida com outros reféns. Os sequestradores batiam e abusavam dos reféns, chegando a queimá-los com baionetas aquecidas em fogo. "Quando pedimos comida, eles escolheram um homem entre nós e cortaram sua garganta, matando-o", ela contou à Human Rights Watch. "Você quer comer? Aqui está a carne", eles nos disseram. "Ela foi mantida por nove dias e libertada após sua família ter pago pelo resgate.

© 2015 John Emerson/Human Rights Watch

Nos casos documentados pela Human Rights Watch, sequestradores exigiram entre US$ 200 e US$ 30.000 por refém – embora os valores pagos eram frequentemente muito menores do que a quantidade exigida, disseram parentes e pessoas que foram mantidas reféns.

Os pagamentos de resgate, muitas vezes trazem graves dificuldades financeiras para as famílias. Um homem teve que vender sua terra para pagar o dinheiro que sua família tinha emprestado para pagar por seu resgate, deixando sua família com nenhuma fonte de renda.

Trabalhadores nacionais e internacionais de ajuda humanitária, agentes contratados para trabalhar com as Nações Unidas e motoristas de uma grande empresa de transporte são também alvos dos sequestradores. Em todos os casos, eles foram liberados. Entretanto, nenhuma informação foi divulgada sobre o pagamento de resgate.

Pelo menos 14 pessoas foram sequestradas perto de áreas onde soldados congoleses estavam baseados, levando algumas das vítimas e suas famílias a especularem que os soldados possam ser cúmplices. A Human Rights Watch não encontrou nenhuma evidência crível que indicasse a participação de soldados congoleses nos sequestros, embora alguns dos envolvidos aparentassem ser membros ou ex-membros de grupos armados que oficiais do exército congolês tinham armado ou apoiaram no passado.

Um dos grupos envolvidos é a Força de Defesa dos Interesses dos Congoleses (FDIPC), que colaborou com o exército congolês durante as operações militares contra o grupo rebelde M23 em 2012 e 2013, de acordo com a investigação Human Rights Watch e da ONU. Pessoas que foram mantidas reféns e autoridades locais disseram à Human Rights Watch que os combatentes e ex-combatentes da FDIPC foram responsáveis por alguns dos sequestros.

Citando a "escala imensurável" de sequestros no leste do Congo, a Comissão Nacional de Defesa e Segurança da Assembleia Nacional realizou uma audiência em 03 de dezembro com o vice-primeiro-ministro e ministro do Interior, Evariste Boshab sobre a resposta do governo. Boshab respondeu que a situação é "extremamente preocupante" e "um dos maiores desafios de segurança enfrentados pelo governo hoje."

Três membros da Comissão afirmaram que foi acordado que uma comissão parlamentar de inquérito seria estabelecida para investigar os sequestros e a possível cumplicidade de funcionários do governo e de segurança, e para avaliar o que já foi feito e fazer recomendações.

A Human Rights Watch fez um apelo à Comissão para reforçar necessidade de se criar uma unidade especial da polícia para documentar e responder aos casos de sequestro; identificar e prender supostos sequestradores; denunciar suposta cumplicidade entre sequestradores e servidores públicos; e trabalhar com agentes do sistema de justiça para levar as pessoas consideradas responsáveis à justiça em julgamentos justos e críveis.

"Pôr fim à ameaça de sequestro deve ser uma prioridade para o governo congolês", disse Sawyer. "As autoridades não só responsabilizar os sequestradors em julgamentos justos, como também descobrir e agir contra quaisquer funcionários públicos envolvidos."

 

Os Seqüestros

A Human Rights Watch confirmou o seqüestro em troca de resgate de 172 congoleses e três cidadãos estrangeiros em 35 incidentes em Rutshuru, dois em Nyirangongo, um em Walikale, e quatro em Goma, em 2015. O número real de casos é provavelmente muito maior. A Human Rights Watch também recebeu relatos de casos de seqüestro na cidade de Butembo e no território Beni em 2015, mas eles vão além do escopo desta pesquisa.

A maioria dos sequestros documentados ocorreu em áreas anteriormente controladas pela M23, um grupo rebelde apoiado por Ruanda, responsável por crimes de guerra entre início de 2012 e final de 2013, quando militares congoleses e forças da ONU derrotaram o grupo. Um novo programa nacional de desarmamento, desmobilização e reintegração (DDR) para desarmar os antigos combatentes do M23 e outros grupos armados e fornecer-lhes outras oportunidades econômicas ainda não está operando plenamente. Combatentes que se renderam e abandonaram grupos armados nos últimos dois anos foram enviados para campos de reagrupamento, onde tem esperado por meses, muitas vezes em péssimas condições, até que o programa se inicie. Alguns, cansados de esperar, abandonaram os campos e voltaram a se juntar a grupos armados ou se voltaram a outras atividades criminosas, inclusive sequestro.

 

Relatos de pessoas que foram mantidas reféns

Uma mulher de 19 anos de idade foi sequestrada em Goma em 18 de setembro depois de ter aceitado carona de três homens:

Uma outra menina também estava no carro quando eu entrei. Quando percebemos que eles estavam nos levando na direção errada, começamos a gritar. O motorista, então, passou por cima e tampou nossas bocas e olhos com fita adesiva. Eles amarraram meus pés e as mãos com um cinto. Eu não sabia onde eu estava ou para onde estávamos indo. Um pouco depois, ouvi a buzina de carro e dois homens me levaram para uma casa. Mais tarde naquele dia, eles me injetaram alguma coisa, e perdi a consciência.

Ela foi liberada nove dias mais tarde, depois de sua família ter pago US$ 300 aos sequestradores. Após uma consulta médica, ela descobriu que havia sido estuprada enquanto estava inconsciente.

Uma estudante de 27 anos de idade foi raptada às 11 horas no dia 2 de setembro, perto do hospital geral em Goma:

Eu estava no meu caminho para a universidade quando um carro buzinou atrás de mim. Um dos passageiros me chamou pelo sobrenome do meu pai. Disseram-me que tinha tentado falar com meu irmão por telefone para lhe entregar um pacote, mas ele não havia atendido. Pediram então para que eu fosse com eles buscar o pacote. Eu só tive coragem de entrar no carro porque eles conheciam meu pai. Eu não conhecia nenhum deles. Quando passamos pelo Hotel Karibu, eu perdi a consciência. Eu não sei como. No dia seguinte, acordei em uma floresta. Lá eu conheci outras pessoas que tinham sido sequestradas: crianças, homens, e mulheres. Nós todos tínhamos apanhado. Eles colocavam uma baioneta no fogo e depois a seguravam sobre nossas barrigas. Uma dor terrível. Um dia, quando pedimos para comer, eles escolheram um homem entre nós e cortaram sua garganta, matando-o. "Você quer comer? Aqui está a carne", eles nos disseram. Minha família tinha enviado US$ 7.000 via Airtel Money. Eu não sei o que aconteceu depois, mas quando eu acordei já estava fora [da cidade] de Sake.

Um empresário de 53 anos, seqüestrado com outros 16 homens em 17 de Maio, em Mabenga, território de Rutshuru:

Nós estávamos em um ônibus público para Mabenga quando encontramos bandidos que começaram a atirar para o ar e depois em nossos pneus. Um dos passageiros morreu imediatamente... outra pessoa ficou ferida. Eu queria fugir, mas um bandido disse: ". Quem se atrever a fugir, vai morrer da mesma maneira"...  As mulheres que estavam com a gente no ônibus não foram levadas. Éramos todos homens, 17 de nós.

Quando o FARDC [exército congolês] soube de nosso sequestro, eles vieram para ajudar. Eles dispararam um monte de tiros com os sequestradores. Um dos bandidos disse: "O exército de vocês quer libertar vocês, vamos mostrar quem somos nós." Em seguida, eles atiraram em um [dos reféns], que então morreu no campo.

Os passageiros foram liberados mais tarde, um após o outro, para resgates que variam entre US$ 500 e US$ 4.000. Juntamente com o seu sobrinho, o empresário foi libertado depois de nove dias e um pagamento de US$ 1.000.

Um senhor de 52 anos de idade, pai de 10, foi sequestrado por três dias em Busendo, território de Rutshuru, no mês de  abril:

Tive que trabalhar imediatamente para conseguir dinheiro para pagar minha dívida. Eu não sei como conseguir isso. Eu tenho muitos problemas. Fui forçado a vender o minha terra para conseguir US$ 200. A situação no Binza [território de Rutshuru] é muito ruim. Nós não ficamos mais em casa, mas em nossos campos. Não há nenhuma segurança. Estamos sem saída.

 

*Esta é uma versão reduzida do disponível em inglês.