Há quase dois anos, estive em Chios, pequena ilha na Grécia, onde acompanhei uma pesquisa com refugiados recém chegados à Europa. Ao conversar com refugiados vindos da Síria, Iraque, Congo, Afeganistão e de outros países que passam por grandes perturbações, não eram poucas as vezes que meus olhos marejavam. Eles contavam sobre a vida em países devastados pela guerra ou vivendo sob regimes abusivos e autoritários, e sobre as dificuldades quase inimagináveis que haviam enfrentado para fugir, com frequência movidos pela esperança de poder oferecer um novo futuro para seus filhos. Junto da tristeza sentia grande incoformismo, e por vezes raiva não só de quem os perseguia, mas também daqueles que não conseguiam reconhecer sua humanidade.

A maior parte do refugiados com quem falei expressava medo constante de ataques xenófobicos. Em Atenas, visitei famílias de refugiados vivendo em uma ocupação na cidade, e eles relatavam o medo de sair às ruas. Ataques motivados por xenofobia e discriminação racial estavam em alta àquela época. Os refugiados sentiam-se isolados. Desejavam somente uma oportunidade para se integrarem às sociedades europeias. Podiam sentir a hostilidade que alguns de seus novos vizinhos gregos tinham em relação a eles, incluindo a tendência de culpá-los genericamente por problemas como o crime e o desemprego.

Não pude deixar de pensar nos relatos que ouvi na Grécia quando soube do ataque de 18 de agosto contra os venezuelanos na cidade fronteiriça de Pacaraima. Moradores da cidade atacaram venezuelanos que estavam morando nas ruas, queimaram seus poucos pertences e forçaram o retorno de cerca de 1.200 deles à Venezuela. A polícia apenas observou o ataque, sem fazer nada para impedí-lo.

Na capital de Roraima, Boa Vista, venezuelanos vivendo em abrigos ou nas ruas disseram que algumas pessoas os insultam dos carros que passam.

Embora o governo federal tenha feito esforços significativos para responder ao intenso fluxo de pessoas desesperadas por alimentos, cuidados básicos de saúde, e liberdade, precisa fazer muito mais para integrar os refugiados venezuelanos à sociedade, oferecendo inclusive acesso à educação. O governo precisa também acelerar o programa de transferência voluntária para outros estados. Mas, antes de tudo, as autoridades brasileiras precisam tomar medidas imediatas contra ataques xenófobos. Ao Ministério Público cabe denunciar todos aqueles que agem de forma violenta contra os venezuelanos e instar as corregedorias da polícia a responsabilizar policiais que não cumprirem seu dever.

Em tempo, é importante lembrar que não há apenas ódio em Roraima. Muitos moradores compartilham sua comida com venezuelanos, e outros abriram suas casas para recebê-los. Esta é a nossa chance, como país, de demonstrarmos compaixão com nossos vizinhos que chegam em busca de proteção.