O deputado Jean Wyllys durante o 15º Seminário LGBT do Congresso Nacional no dia 6 de junho de 2018.

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O Congresso brasileiro perdeu uma importante voz pelos direitos de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros (LGBT) em um momento que ela é mais importante do que nunca: Jean Wyllys, um membro abertamente gay do Congresso Nacional, anunciou que desistiu de seu mandato como deputado, por temer por sua vida.

“Quero cuidar de mim e me manter vivo”, disse Jean Wyllys, que disse que vai morar no exterior.

Durante dois mandatos, Jean Wyllys, que nasceu em uma família pobre em 1974, foi defensor convicto dos direitos humanos para todos, independentemente da orientação ou identidade sexual. Isso fez dele um alvo preferencial de assédio e intimidação por parte de fanáticos religiosos que veem a homossexualidade como um pecado.

Ele sofreu uma avalanche de acusações falsas nas mídias sociais - que ele continuava a refutar em seu website - e relatou ter recebido várias ameaças.

Um momento decisivo foi o assassinato em março de 2018 da ativista de direitos humanos e vereadora Marielle Franco, defensora dos pobres, negros e pessoas LGBT no Rio de Janeiro, o estado pelo qual Jean Wyllys se elegeu.

Jean Wyllys disse que o assassinato de Marielle o fez perceber a seriedade das ameaças contra ele. Ele denunciou as ameaças à Polícia Federal, mas reclamou que a investigação não levava a lugar nenhum. Em novembro de 2018, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos concluiu que sua vida estava “em grave perigo” e o Estado não estava fazendo o suficiente para protegê-lo.

Sua defesa apaixonada dos direitos LGBT o levou a colidir com o deputado Jair Bolsonaro, que se tornou presidente do Brasil em janeiro.

Em uma entrevista de 2015, Bolsonaro descreveu Jean Wyllys como "um ativista gay com projetos absurdos que não somam nada para que se valorize a família".

Jean Wyllys disse que a vitória de Bolsonaro em si não foi o motivo de sua saída, mas sim o "aumento assustador" da violência contra as pessoas LGBT que ele acredita que essa vitória trouxe. Ele mencionou a morte no dia 21 de janeiro de uma mulher trans, cujo assassino rasgou o seu peito e alí colocou uma imagem religiosa.

Nenhum político, da esquerda ou da direita, deveria se sentir forçado a abandonar seu mandato no Congresso por ameaças a sua vida. A decisão de Jean Wyllys é compreensível. Mas é uma grande perda para todos os brasileiros, que têm o direito de ouvir opiniões diversas e de expressá-las sem medo de represálias.