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Venezuela: ações dos EUA podem gerar um desastre em matéria de direitos humanos

Washington não deveria tentar perpetuar um status quo marcado por abusos

President of Venezuela Nicolás Maduro and his wife, Cilia Flores, are in handcuffs after landing at a Manhattan helipad, escorted by US Federal agents en route to a Federal courthouse in Manhattan on January 5, 2026, in New York City.
O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores, caminham algemados após pousarem em um heliponto em Manhattan, escoltados por agentes federais dos EUA, a caminho de um tribunal federal em Manhattan, em 5 de janeiro de 2026, na cidade de Nova York. © 2025 XNY/Star Max/GC Images © 2025 XNY/Star Max/GC Images

(Nova York) – O ataque militar do governo Trump pode causar um novo desastre de direitos humanos para os venezuelanos, afirmou hoje a Human Rights Watch.

Na madrugada de 3 de janeiro de 2026, as Forças Armadas dos EUA realizaram ataques na Venezuela e prenderam o presidente do país, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores. Desde então, eles tiveram uma audiência em um tribunal federal dos EUA sob acusações de tráfico de drogas e outros crimes. 

“Os venezuelanos têm o direito de escolher livremente seus próprios líderes e decidir o futuro de sua nação”, disse Juanita Goebertus, diretora da Human Rights Watch para as Américas. “No entanto, os EUA parecem dispostos a incentivar a Venezuela a manter o aparato repressivo de Maduro, desde que isso promova os interesses políticos e comerciais dos EUA.”

O presidente Donald Trump disse em 3 de janeiro que os Estados Unidos “administrariam” a Venezuela por enquanto, sem especificar o que isso significa. Autoridades americanas indicaram que pretendem trabalhar com Delcy Rodríguez, que atuava como vice-presidente de Maduro e tomou posse como presidente interina em 5 de janeiro.

As autoridades americanas afirmaram que usarão sua capacidade de reforçar ou flexibilizar o bloqueio ao petróleo no Caribe, juntamente com a ameaça de novos ataques, para obrigar o governo venezuelano a cumprir as exigências e expectativas dos EUA. Entre elas estão abrir caminho para investimentos de empresas petrolíferas americanas no país e combater a violência das gangues, entre outros objetivos.

Os ataques dos EUA, em 3 de janeiro, teriam como alvo instalações militares e teriam matado dezenas de militares e pelo menos dois civis. O governo cubano, que há muito apoia o governo da Venezuela, disse que 32 oficiais cubanos foram mortos. Na preparação para esses ataques, os Estados Unidos executaram extrajudicialmente pelo menos 115 pessoas em embarcações que, segundo o governo Trump, traficavam drogas no Mar do Caribe e no Oceano Pacífico. 

Após os ataques de 3 de janeiro, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, disse que os Estados Unidos pressionarão o governo venezuelano para facilitar os investimentos em petróleo por empresas americanas, responder a grupos criminosos e romper relações com o Irã e o Hezbollah. O presidente Trump disse a repórteres em 5 de janeiro que, se a Venezuela não “se comportar”, os Estados Unidos “farão um segundo ataque”.

Trump também disse que os Estados Unidos “administrariam” a Venezuela até que houvesse uma “transição criteriosa”. O governo dos EUA não especificou quando ou como essa transição poderia ocorrer, nem se esse processo incluiria eleições livres e justas, a libertação de presos políticos e outras mudanças importantes em matéria de direitos humanos.

Em julho de 2024, os venezuelanos foram às urnas em grande número, apesar da repressão do governo Maduro. Observadores independentes apresentaram dados mostrando que os venezuelanos apoiaram de forma esmagadora Edmundo González, que é apoiado pela líder da oposição María Corina Machado, para se tornar presidente. No entanto, as autoridades eleitorais anunciaram que Maduro havia sido reeleito.

Após as eleições, o governo Maduro realizou uma onda de violações generalizadas dos direitos humanos, incluindo assassinatos de manifestantes e detenções arbitrárias e desaparecimentos forçados de líderes da oposição, críticos, defensores dos direitos humanos e cidadãos estrangeiros.

Mais de 860 presos políticos permanecem atrás das grades na Venezuela, de acordo com o grupo jurídico pro bono Foro Penal. A Promotoria do Tribunal Penal Internacional tem uma investigação em aberto sobre supostos crimes contra a humanidade cometidos na Venezuela desde 2014.

Por mais de uma década, os venezuelanos têm sofrido uma crise humanitária, com grave escassez de alimentos e medicamentos. Sete milhões de venezuelanos fugiram do país e outros 14,2 milhões têm graves necessidades humanitárias. 

Os líderes latino-americanos, europeus, canadenses e outros líderes mundiais deveriam pressionar por uma transição para a democracia, pedir a libertação dos presos políticos e promover a responsabilização pelas graves violações dos direitos humanos cometidas pelo governo venezuelano, disse a Human Rights Watch. Por sua vez, o governo dos Estados Unidos deve cumprir suas obrigações nos termos do direito internacional dos direitos humanos e do direito internacional humanitário.

“Os governos estrangeiros deveriam se concentrar em proteger os direitos dos venezuelanos que sofrem há uma década nas mãos do governo Maduro”, disse Goebertus. “A decapitação do governo venezuelano por Trump não fez nada para protegê-los de novos abusos.”

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