O candidato Jair Bolsonaro (PSL) fala à imprensa após gravação de campanha, no bairro Jardim Botânico, no Rio de Janeiro.

© Fernando Frazão/Agência Brasil

Os candidatos à Presidência da República devem denunciar de forma contundente as ameaças e atos de violência contra jornalistas que cobrem a campanha eleitoral, disseram hoje várias organizações não-governamentais brasileiras e internacionais. Dezenas de repórteres foram perseguidos, ameaçados e, em alguns casos, atacados fisicamente.

As organizações são Artigo 19, Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Comité para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), Conectas Direitos Humanos, Human Rights Watch e Repórteres sem Fronteiras (RSF).

Patrícia Campos Mello, repórter especial da Folha de São Paulo, disse que recebeu uma enxurrada de ameaças on-line e duas ligações ameaçadoras, e sua conta no WhatsApp foi hackeada depois que ela descobriu e noticiou uma suposta campanha de empresários favoráveis ao candidato presidencial Jair Bolsonaro para enviar notícias falsas para milhões de brasileiros por meio do WhatsApp.

Após a reportagem, Mauro Paulino, diretor-executivo do Datafolha (ligado à Folha de São Paulo)¸ também recebeu ameaças em um aplicativo de mensagens e em sua casa, de acordo com o jornal. Ademais, o jornal informou que apoiadores do Bolsonaro fizeram um ataque “sistemático” em um de seus números de Whatsapp, que recebeu 220.000 mensagens em quatro dias. Isso tornou impossível para os repórteres acompanhar as mensagens enviadas por seus leitores, disse a Folha.

Em 23 de outubro, o jornal pediu ao Tribunal Superior Eleitoral que solicite a instauração de um inquérito pela Polícia Federal para apurar o que considera “indícios de uma ação orquestrada com tentativa de constranger a liberdade de imprensa”.

“As ameaças são inaceitáveis; elas devem ser investigadas e todos os envolvidos devem ser responsabilizados a fim de proteger o jornalismo responsável, investigativo e independente”, disse Juana Kweitel, diretora executiva da Conectas Direitos Humanos.

“As ameaças contra Patrícia Campos Mello e outros jornalistas representam uma escalada alarmante da retórica contra a imprensa neste ciclo eleitoral contencioso no Brasil", disse Natalie Southwick, Coordenadora do Programa do CPJ para a América Central e do Sul. “Os jornalistas que cobrem a eleição presidencial no Brasil devem poder trabalhar livremente e com segurança enquanto fazem reportagens sobre questões de interesse público. Pedimos aos candidatos de todos os partidos que respeitem a liberdade de imprensa, se abstenham de fazer declarações inflamatórias contra a mídia, e exortem seus partidários a parar de assediar e ameaçar jornalistas”.

A Abraji documentou 141 casos de ameaças e violência contra jornalistas que cobriam as eleições. A maioria deles é atribuída a partidários de Bolsonaro, enquanto o restante é atribuído a apoiadores do Partido dos Trabalhadores (PT).

Os ataques contra mulheres jornalistas frequentemente incluem violências de gênero, incluindo assédio sexual online e ameaças de violência sexual, segundo a Artigo 19.

“A fim de demonstrar comprometimento com a preservação da democracia, ambos os candidatos devem condenar qualquer ameaça ou ataque contra jornalistas por fazerem seu trabalho e devem se abster de qualquer discurso que incite a violência”, disse Daniel Bramatti, presidente da Abraji.

Em março, agressores não identificados atiraram contra um ônibus que transportava 28 repórteres que cobriam um evento do PT. Ninguém ficou ferido. Por sua vez, há registros de apoiadores do PT intimidando e agredindo repórteres.

“É inaceitável que pessoas sejam intimidadas ou atacadas em razão de seu trabalho ou opinião política. Isso tem um efeito perturbador para toda a sociedade. Precisamos de maior liberdade de expressão para nutrir nossas instituições democráticas” disse Laura Tresca, diretora executiva em exercício da Artigo 19 para a América do Sul.

“Ataques por apoiadores de candidatos presidenciais contra a imprensa são inaceitáveis e indignos de qualquer partido político que almeje governar o país”, disse Emmanuel Colombié, diretor regional para a América Latina da RSF. “O discurso de ódio e campanhas de desinformação estão exacerbando as tensões na sociedade já altamente polarizada no Brasil. RSF apoia todos os jornalistas brasileiros, cujo trabalho durante esse período turbulento é essencial”.

O candidato à presidência da República, Fernando Haddad, fala com a imprensa antes da reunião com a Executiva Nacional do PT, no Hotel Nobile Suítes Congonhas.

© Rovena Rosa/Agência Brasil

O assédio e intimidação de jornalistas ocorre em um contexto de polarização e aumento da violência política contra pessoas LGBT, mulheres, negros e aqueles que expressam visões políticas diferentes das dos agressores. Em 8 de outubro, um homem matou Romualdo Rosário da Costa em um bar em Salvador, supostamente depois que o homem ficou irritado quando da Costa revelou que havia votado em Fernando Haddad, o candidato do PT à presidência. O próprio Bolsonaro foi vítima de um ataque durante um evento de campanha em setembro.

“Qualquer um pode discordar de uma reportagem, e deve ter o direito de fazê-lo publicamente, mas ameaçar o jornalista e incitar outros a fazer o mesmo não só põe em perigo a segurança pessoal dos jornalistas, mas prejudica a liberdade de expressão e a democracia”, disse Maria Laura Canineu, diretora da Human Rights Watch no Brasil. “Os candidatos à presidência devem defender o direito dos jornalistas de informar o público e o direito do público de ser informado”.