(Nova York) – Com a cumplicidade ou a cegueira proposital do governo do Sri Lanka, o grupo Karuna raptou e recrutou forçosamente centenas de crianças no leste do Sri Lanka, disse a Human Rights Watch em um relatório publicado hoje.

O grupo Karuna, liderado por V. Muralitharan, conhecido como Karuna, um ex-comandante dos Tigres de Libertação da Pátria Tâmil (LTTE), se separou dos Tigres Tamis em 2004 e agora coopera com os militares do Sri Lanka na sua luta comum contra a LTTE.

No novo relatório de 100 páginas, Complicit in Crime: State Collusion in Abductions and Child Recruitment by the Karuna Group (Cumplicidade no crime: Conluio estatal nos raptos e recrutamento de crianças pelo grupo Karuna), a Human Rights Watch documenta padrões de rapto e recrutamento forçado pelo grupo Karuna durante o último ano. Com estudos de caso, mapas e fotografias, o relatório mostra como núcleos de treinamento Karuna operam com impunidade em áreas controladas pelo governo, raptando meninos e jovens, treinando-os em campos e colocando-os em combate.

“O grupo Karuna está raptando crianças à luz do dia em áreas firmemente sob o controle do governo”, disse Brad Adams, diretor da divisão da Ásia da Human Rights Watch. “O governo está totalmente ciente dos raptos, mas permite que os mesmos aconteçam porque está ávido para ter um aliado contra os Tigres Tamis”.

Baseado em pesquisa no Sri Lanka, incluindo áreas onde o grupo Karuna opera, o relatório apresenta testemunhos de duas dúzias de membros de famílias de meninos e jovens raptados pelo grupo Karuna. Eles descreveram membros armados do grupo Karuna levando forçosamente seus irmãos, sobrinhos e filhos de suas casas, lugares de trabalho, templos, pátios, ruas públicas e até mesmo de um casamento.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) documentou mais de 200 casos de recrutamento de crianças pelo grupo Karuna nos distritos ao leste do Sri Lanka, onde o grupo está ativo. Mas o número real é certamente muito maior devido à falta de informações concretas.

Crianças não são os únicos alvos. A Human Rights Watch descobriu que o grupo Karuna raptou e recrutou forçosamente centenas de jovens adultos entre as idades de 18 e 30 anos. A Human Rights Watch sabe somente de dois casos nos quais o grupo Karuna raptou meninas. O grupo geralmente visa famílias pobres, e freqüentemente aquelas que já tiveram outra criança recrutada pelos Tigres Tamis.

Ao menos desde junho de 2006, e provavelmente antes, o governo do Sri Lanka sabe sobre os raptos de Karuna. Os distritos do leste, onde eles aconteceram, estão firmemente sob o controle do governo, com um alto número de pontos de verificação policial e militar, e campos da força de segurança.

“Após anos condenando o recrutamento de crianças pelos Tigres Tamis, o governo agora é cúmplice dos mesmos crimes”, disse Jo Becker, promotora de direitos das crianças na Human Rights Watch, que já escreveu extensivamente sobre os Tigres Tamis. “O conluio do governo nos raptos de crianças pelo grupo Karuna realça sua hipocrisia”.

Em um incidente em junho de 2006, o grupo Karuna raptou 13 meninos e jovens, mantendo alguns deles por certo tempo numa loja perto de um posto militar. Alguns dos pais suplicaram aos soldados que interviessem. Os pais disseram à Human Rights Watch que dois soldados chegaram a falar com os membros do grupo Karuna, mas eles não deram fim ao rapto.

No mesmo dia, em outra aldeia, soldados do exército do Sri Lanka agruparam sete meninos e jovens em um campo, verificaram suas carteiras de identidade e tiraram suas fotografias. Naquela noite, membros do grupo Karuna foram ao local e raptaram quatro dos sete meninos, apesar de ser ainda incerto neste caso se as forças do exército estavam deliberadamente em conluio com o grupo Karuna.

Após raptar meninos e jovens, o grupo Karuna freqüentemente os mantém temporariamente nos escritórios mais próximos de seu partido político, o Tamil Makkal Viduthalai Pulikal (TMVP), que geralmente são vigiados pelo exército do Sri Lanka ou pela polícia. Os pais disseram à Human Rights Watch que eles viram seus filhos raptados nesses escritórios, ou oficiais do TMVP deram confirmação às famílias de que eles estiveram por lá.

Após alguns dias, o grupo Karuna geralmente transfere os raptados a um de seus campos na floresta, a cerca de 10 quilômetros a noroeste da cidade de Welikanda, no distrito de Polonnaruwa, cerca de 50 quilômetros a noroeste da cidade de Batticaloa. Welikanda é onde a 23ª divisão do exército do Sri Lanka está baseada. A área está firmemente sob o controle do governo, assim como a estrada principal A11, que liga os distritos do leste à área de Welikanda. É necessário passar por vários pontos de verificação do exército e da polícia para viajar pela área, e o transporte de jovens raptados para os campos seria impossível sem a cumplicidade das forças de segurança do governo. O campo Karuna no vilarejo de Mutugalla fica perto de um posto do exército do Sri Lanka.

“Não somente as forças do governo falham em impedir os raptos, mas elas também permitem que o grupo Karuna transporte crianças seqüestradas através de postos de verificação no caminho para seus campos”, disse Becker.

A Human Rights Watch disse que a polícia do Sri Lanka também é cúmplice na sua falta de vontade em investigar seriamente as reclamações feitas pelos pais de meninos e jovens raptados. Em alguns casos, a polícia alegadamente se recusou a registrar as reclamações dos pais. Em outros casos, a polícia registrou a reclamação, mas falhou em executar o que a família considerava uma investigação apropriada. Em nenhum caso conhecido a polícia assegurou a libertação da criança.

Em uma entrevista feita em novembro com a Human Rights Watch, Karuna negou alegações de que suas forças estavam raptando ou recrutando crianças. Ele disse que suas forças não possuíam membros abaixo da idade de 20 anos, e que eles iriam punir disciplinarmente qualquer comandante que tentasse recrutar uma pessoa abaixo desta idade. Ele subseqüentemente fez compromissos com a ONU para emitir diretrizes banindo o recrutamento de crianças, para libertar qualquer criança encontrada entre os postos do grupo Karuna, e fornecer acesso da UNICEF aos seus campos.

Em 2 de janeiro de 2007, o TMVP, partido político de Karuna, forneceu à UNICEF regulamentações para seu braço militar, determinando 18 anos como a idade mínima para recrutamento, especificando penalidades a membros que alistassem crianças.

Ainda não há sinal de que estes compromissos estejam sendo honrados. Ativistas locais de direitos humanos e agências internacionais relatam que o grupo Karuna continuou a raptar meninos e jovens em novembro e dezembro de 2006.

Em novembro, após o enviado da ONU, Allan Rock, levantar alegações sobre a cumplicidade do governo nas abduções de Karuna, o governo do Sri Lanka prometeu uma investigação do caso. Em vez disso, oficiais militares e do governo lançaram ataques à credibilidade de Rock.

“O governo deve parar de inventar desculpas e iniciar uma investigação séria e imparcial sobre a cumplicidade do governo com os crimes de Karuna”, disse Adams. “Se o governo não investigar, então ele deve permitir um inquérito internacional independente”.

A LTTE tem raptado crianças para suas forças por muito tempo, e as tem usado como soldados de infantaria, oficiais de inteligência, paramédicos e até como homens-bomba. A Human Rights Watch documentou a prática em um relatório de 2004, Living in Fear: Child Soldiers and the Tamil Tigers in Sri Lanka (Vivendo com medo: Crianças-soldado e os Tigres Tamis no Sri Lanka).

O novo relatório inclui informações atualizadas sobre os raptos de crianças pelos Tigres Tamis e incita a ONU a impor sanções direcionadas ao grupo, por causa de sua condição de ofensor repetido. A ONU deveria também insistir para que o grupo Karuna adote e implemente imediatamente um plano de ação para acabar com o recrutamento e o uso de crianças-soldado, e considerar sanções direcionadas se este falhar em fazê-lo, disse a Human Rights Watch.

Em 9 de fevereiro, um grupo de trabalho do Conselho de Segurança da ONU sobre crianças e conflitos armados está marcado para considerar violações reportadas contra crianças por todas as partes do conflito armado no Sri Lanka. O grupo de trabalho recomendará ações para o Conselho de Segurança.

Entretanto, a Human Rights Watch invocou os Tigres Tamis, o grupo Karuna e o governo do Sri Lanka dar fim ao recrutamento de crianças. O grupo Karuna e os Tigres Tamis devem libertar imediatamente todas as crianças que estão em suas fileiras.