Manifestantes mostram fotos de vítimas da ditadura durante um ato em 31 de março de 2019 em São Paulo para lembrar o 55º aniversário do golpe que instalou o regime militar.

© 2019 César Muñoz Acebes / Human Rights Watch

“Alexandre Vannucchi

Presente!

Fernando Santa Cruz

Presente!

Rubens Paiva,

Presente!"

Em uma noite mal iluminada do Parque Ibirapuera, em São Paulo, manifestantes gritavam esses nomes e a multidão respondia: “Presente!”.

Esses são os nomes de algumas das centenas de pessoas que foram assassinadas ou desaparecidas pela ditadura militar no Brasil, entre 1964 e 1985. Brasileiros em todo o país foram às ruas em 31 de março para marcar o 55° aniversário do golpe, quando tanques depuseram um presidente democraticamente eleito e instauraram um regime militar brutal.

Esse é um fato histórico.

No entanto, o presidente Jair Bolsonaro, ex-capitão do exército, defende o legado da ditadura e quer reescrever a história. Na semana passada, ele ordenou ao Ministério da Defesa que comemorasse o ocorrido em 31 de março de 1964, que ele nega ter sido um golpe. Um convite de um alto comandante do exército refere-se ao golpe como "Revolução Democrática" de 1964.

Convite do Comandante Militar do Oeste para uma formatura alusiva à “Revolução Democrática” de 31 de março de 1964.

A Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão do Ministério Público Federal pediu ao Ministério da Defesa que não celebrasse um golpe e regime militar. Contudo, as cerimônias ocorreram, inclusive no Palácio da Alvorada, com a presença de Bolsonaro.

Assim, enquanto manifestantes em todo o país entoavam “Ditadura, nunca mais”, o Palácio do Planalto divulgava um vídeo no qual um senhor, com uma música sinistra ao fundo, fala sobre o período anterior à ditadura militar como uma época de “escuridão” e diz que o exército “salvou” os brasileiros.

A tentativa de Bolsonaro de reescrever a história tem causado indignação sobretudo àqueles que perderam entes queridos para a tortura e o assassinato.

“Pessoas morreram, houve censura da imprensa. O que foi isso, foi nada?”, questionou Ivo Herzog, filho do jornalista Vladimir Herzog, torturado e morto em 1975 por agentes da ditadura. “Essas famílias [das vítimas] vêm buscando justiça há mais de quarenta anos”.

No ato Marcha do Silêncio em Sâo Paulo,  Liz da Silva Marques, uma administradora de escola de 56 anos, estava carregando fotos de Vladimir Herzog e de Manoel Fiel Filho, um operário metalúrgico que também foi torturado e assassinado em 1976.

“Não podemos perder essa memória para que isso não se repita no Brasil e na América Latina”, Liz nos falou. “A ditadura não traz a paz. O que traz a paz é a justiça”.