Venezuelanos esperam para vacinar seus filhos em um posto de vacinação administrado pela Organização Panamericana de Saúde, ao lado colombiano da fronteira com a Venezuela. 28 de julho de 2018. 

© 2018 Human Rights Watch
(Washington D.C.) – A Venezuela está enfrentando uma crise de saúde devastadora, cuja proporção continua sendo negada pelo governo, disse a Human Rights Watch em um relatório publicado hoje.

Diante da crise que foge ao controle, pesquisadores da Human Rights Watch viajaram para as fronteiras colombiana e brasileira para avaliar a extensão da crise humanitária da qual os venezuelanos estão fugindo. A Human Rights Watch viajou com uma equipe de médicos e profissionais de saúde pública do Centro de Saúde Humanitária da Universidade Johns Hopkins e do Centro de Saúde Pública e Direitos Humanos, com sede na Escola Bloomberg de Saúde Pública Johns Hopkins.

"O sistema de saúde pública da Venezuela entrou em colapso, colocando em risco a vida de inúmeros venezuelanos", disse Shannon Doocy, professora da Escola Bloomberg de Saúde Pública Johns Hopkins e integrante da equipe que viajou para a fronteira Colômbia-Venezuela. "A combinação de um sistema de saúde debilitado com a escassez generalizada de alimentos gerou uma catástrofe humanitária, e só vai piorar se não for tratada com urgência".

Nos últimos anos, o governo venezuelano buscou suprimir dados sobre a situação epidemiológica do país, em uma aparente tentativa de esconder a extensão da crise de saúde. Em 2015, o Ministério da Saúde parou subitamente de publicar seus relatórios semanais com indicadores relevantes de saúde, uma importante fonte de informação de saúde pública, embora ainda encaminhe alguns dados à Organização Pan-Americana da Saúde.

Quando a então ministra da Saúde retomou brevemente as publicações em 2017, foi imediatamente demitida. O governo também tem retaliado médicos que manifestaram preocupação com a crise publicamente ou que tentaram compartilhar dados sobre ela.

Os dados disponíveis apontam para um quadro preocupante, com surtos de doenças como o sarampo e a difteria, aumento dos casos de malária e tuberculose, e uma indisponibilidade quase absoluta do tratamento antirretroviral para pessoas com HIV. Níveis crescentes de desnutrição agravam essa crise de saúde, tornando os venezuelanos mais suscetíveis a doenças infecciosas e mais propensos a complicações quando doentes.

Vacinação 

Atualmente, a Venezuela enfrenta rotineiramente surtos de doenças que são previníveis por meio da vacinação e que tinham sido erradicadas no país. Estes surtos sugerem sérios problemas com a cobertura vacinal. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde:

Malária

O número de casos suspeitos e confirmados de malária na Venezuela cresceu consistentemente nos últimos anos – subiu de quase 36.000 em 2009 para mais de 406.000 em 2017, segundo a Organização Mundial de Saúde. Atualmente, a epidemia da malária é uma realidade em nove estados venezuelanos, de acordo com um documento oficial da Organização Pan-Americana da Saúde, UNAIDS, e do Ministério da Saúde da Venezuela. Especialistas em saúde atribuem a situação a reduções nas atividades de controle de mosquitos, à escassez de medicamentos para tratar a doença, e a atividades ilegais de mineração, as quais criam reservatórios de água e promovem a proliferação de mosquitos.

Tuberculose

O número de casos notificados de tuberculose na Venezuela aumentou de 6.000 em 2014 para 7.800 em 2016, e relatórios preliminares indicam que houve mais de 10.000 casos em 2017. A taxa de incidência de tuberculose de 2017 (32,4 por 100.000) foi a mais alta na Venezuela em 40 anos.

HIV

A Venezuela é o único país de renda média no mundo onde um grande número de pacientes com HIV é forçado a interromper seu tratamento em razão da escassez generalizada de medicamentos antirretrovirais. Oitenta e sete por cento de mais de 79.000 pessoas com HIV não consegue acessar o tratamento antirretroviral para o qual estão registradas no governo venezuelano. O número de casos recém-identificados de HIV na Venezuela aumentou 24% entre 2010 e 2016, incluindo 6.500 novos diagnósticos em 2016. O número real de novas infecções por HIV é sem dúvida maior, sobretudo considerando que muitos centros de saúde não conseguem mais realizar os testes de HIV.

Mortalidade Materna e Infantil

As últimas estatísticas oficiais disponíveis do Ministério da Saúde venezuelano indicam que, em 2016, a mortalidade materna aumentou 65% e a mortalidade infantil aumentou 30% em apenas um ano.

Desnutrição

As complicações médicas enfrentadas por pacientes na Venezuela ainda são agravadas pela severa escassez de alimentos e pelo acesso limitado a uma alimentação adequada. Muitos entre dezenas de venezuelanos entrevistados na fronteira pela Human Rights Watch e pela equipe John Hopkins disseram que perderam peso e, em casa, comiam uma ou duas refeições por dia – o que para alguns consistia apenas em mandioca ou sardinha.

O governo venezuelano não publica dados nacionais de desnutrição desde 2007, mas as evidências disponíveis sugerem que a desnutrição está aumentando: