Katie Hill no The Women's Power Summit, em Los Angeles, EUA, no dia 2 de novembro de 2018. 

 
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Katie Hill, congressista eleita para a Câmara dos Deputados dos EUA há menos de um ano, acaba de se demitir, dias depois que fotos dela nua – que ela afirma terem sido divulgadas sem o seu consentimento – foram publicadas na internet por meios de comunicação. Hill, 32, também é acusada de ter violado as regras da Câmara ao se envolver em um relacionamento sexual com um membro de sua equipe. Ela nega essa acusação. De qualquer forma, Hill deixou o cargo citando como justificativa as "fotos privadas de momentos pessoais" que haviam sido "utilizadas como arma" contra ela. Ela acrescentou também ter "medo do que poderia vir a seguir".

Muitas pessoas – 90% delas mulheres e meninas – já passaram por alguma forma de violência sexual online, incluindo o que Hill descreve. Fotos comprometedoras têm sido usadas contra pessoas desde que as câmeras surgiram. Mas a mídia online de hoje – onde passamos grande parte de nossas vidas e uma captura de tela pode fazer com que qualquer coisa se torne permanente – cria oportunidades de abuso que nunca existiram antes.

Os abusadores foram rápidos em ver as oportunidades: humilhar, destruir carreiras, reputações e relacionamentos, e até levar as vítimas ao suicídio ou desencadear a chamada "violência de honra" em sociedades onde o sexo fora do casamento é visto como algo que traz vergonha para a família. Eles também encontraram oportunidades para monetizar seus abusos: na Coréia do Sul, onde a Human Rights Watch está atualmente pesquisando esse assunto, há plataformas que cobram para que os espectadores assistam a cenas de "spycam", onde mulheres e meninas são filmadas sem saber em banheiros e vestiários.

Do ponto de vista da vítima, uma vez que a imagem é publicada, o dano é permanente. As imagens não podem ser "desvistas" e, uma vez compartilhadas, não há como voltar atrás: mesmo que o original seja removido, capturas de tela e outras cópias podem reaparecer a qualquer momento.

As empresas de internet não conseguem entender o impacto e a urgência desses casos. Muitas vezes, elas não tomam atitudes para remover imagens compartilhadas de forma não consensual, possuem procedimentos lentos e complexos para esse tipo de solicitação e não agem com rapidez suficiente quando as imagens reaparecem.

Ainda pior é a resposta de governos. Em muitos países, as leis não estão atualizadas e o compartilhamento não consensual de imagens íntimas não é sequer ilegal. Nos casos em que essa prática é crime, a polícia geralmente não possui conhecimentos, ferramentas e compaixão para investigar os abusos e apoiar as vítimas.

A tecnologia está criando novas formas de violência contra as mulheres. Os governos – e as empresas – precisam tomar atitudes que mostrem que eles se importam.