Os ataques russos contra civis na Ucrânia intensificaram-se em 2025, continuando a causar grande sofrimento à população civil e destruição generalizada. Muitos desses ataques, frequentemente envolvendo armas explosivas com amplas áreas de impacto e drones de curto alcance, às vezes de forma combinada, tiveram um impacto devastador sobre os civis ucranianos e podem constituir crimes de guerra. Em 2025, o uso de armas explosivas em áreas populosas contribuiu para um aumento de 31% nas baixas civis em comparação com 2024.
Desde o início da invasão em grande escala da Rússia em fevereiro de 2022 até dezembro de 2025, 14.999 civis ucranianos foram mortos e 40.601 ficaram feridos, de acordo com a Missão de Monitoramento dos Direitos Humanos das Nações Unidas na Ucrânia (HRMMU).
As negociações para pôr fim à guerra, iniciadas em fevereiro pelo governo dos Estados Unidos, continuaram ao longo do ano. Em novembro, os Estados Unidos apresentaram um controverso acordo de paz que supostamente exigia grandes concessões da Ucrânia e continha uma cláusula de anistia para ações cometidas durante a guerra, minando a possibilidade de justiça e responsabilização pelos abusos cometidos durante o conflito.
Como resultado da ordem executiva de janeiro do governo dos Estados Unidos suspendendo a “assistência ao desenvolvimento estrangeiro”, organizações da sociedade civil da Ucrânia perderam cerca de 75% de seu financiamento e tiveram que suspender programas e projetos cruciais de direitos humanos que apoiavam investigações de crimes de guerra.
Em julho, a Ucrânia notificou as Nações Unidas (ONU) sobre a “suspensão” de suas obrigações nos termos do Tratado de Proibição de Minas de 1997. O tratado não permite a suspensão durante conflitos armados e essa medida não está prevista no artigo da Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados que a Ucrânia citou para justificar sua ação. Em 2024, a Ucrânia utilizou minas terrestres que havia recebido dos Estados Unidos. A Rússia, que não é signatária do tratado, utilizou minas terrestres extensivamente, causando um grande impacto sobre a população civil ucraniana.
A guerra continuou a dominar a política interna. Ameaças à liberdade de imprensa, investigações de corrupção e confrontos entre órgãos de segurança pública alimentaram a instabilidade política. Em julho, houve uma grande remodelação do governo, a maior desde o início da guerra em grande escala, resultando na nomeação de um novo primeiro-ministro e gabinete. Para apoiar os militares ucranianos, o parlamento votou em setembro a criação de um órgão de ouvidoria militar. Em fevereiro, o parlamento reafirmou as disposições constitucionais contra a realização de eleições presidenciais até que a lei marcial fosse suspensa.
Escalada dos ataques da Rússia contra civis
Ao longo do ano, as forças russas continuaram a atacar áreas civis densamente povoadas ao longo da linha de frente e em toda a Ucrânia. Muitos desses ataques podem constituir crimes de guerra.
O número de vítimas civis atingiu seu nível mensal mais alto em três anos no mês de julho, com 286 mortos e 1.388 feridos. As altas taxas de vítimas resultaram de uma série de ataques russos, incluindo um ataque combinado com mísseis e drones em Kiev em 31 de julho que matou 31 pessoas, incluindo cinco crianças, e feriu 171. A maioria das vítimas ocorreu depois que um míssil russo atingiu um prédio residencial, tornando-se o ataque mais mortal em Kiev em um ano.
Ao longo do ano, os ataques russos a Izium, Zaporizhzhia, Dnipro, Kryvyi Rih, Odessa e outras cidades mataram e feriram civis, e danificaram infraestruturas vitais.
Em 9 de setembro, as forças russas realizaram um ataque aéreo na vila de Yarova, região de Donetska, matando 25 civis e ferindo 19. A maioria eram aposentados que aguardavam para receber seus pagamentos mensais de pensão em uma agência móvel dos correios.
Em 19 de novembro, um ataque com mísseis russos a um prédio residencial de 9 andares em Ternopil matou 39 pessoas e feriu 90. As operações de busca e resgate no local continuaram por quatro dias, pois muitos moradores ficaram soterrados sob os escombros.
Em 4 de abril, as forças russas realizaram um ataque indiscriminado que matou 20 civis e feriu outros 73 em um bairro residencial de Kryvyi Rih, na região de Dnipropetrovska. O ataque, que envolveu uma munição que explodiu no ar acima de um parque infantil, matou 9 crianças e feriu outras, incluindo um bebê de 3 meses — o maior número de crianças mortas e feridas em um único ataque desde o início da invasão em grande escala. O ataque também danificou seis instituições educacionais e outras infraestruturas civis nas proximidades.
De dezembro de 2024 a novembro de 2025, pelo menos 514 civis foram mortos e 3.042 ficaram feridos em ataques com drones de curto alcance, com o maior número de vítimas ocorrendo na cidade de Kherson e arredores. Os operadores de drones russos usaram sua capacidade de visão em primeira pessoa (FPV) para atacar deliberadamente civis ucranianos. Alguns drones foram usados para lançar minas terrestres antipessoais proibidas e realizar ataques com armas incendiárias em áreas populosas. Ataques contra civis são crimes de guerra e aqueles destinados a instigar o terror podem constituir crimes contra a humanidade.
Ao longo do ano, a Organização Mundial da Saúde (OMS) verificou 577 ataques a serviços de saúde, um aumento em relação ao ano anterior. Pelo menos 2.665 instalações e profissionais de saúde foram afetados desde fevereiro de 2022. Entre dezembro de 2024 e novembro de 2025, a HRMMU verificou vítimas entre 22 trabalhadores humanitários e 116 trabalhadores de serviços de emergência, alguns deles vítimas de ataques “double-tap”, uma prática amplamente utilizada pelas forças russas que consiste em um primeiro ataque a uma área civil, seguido por um segundo ataque visando atingir equipes de socorro.
No final do ano, as forças russas intensificaram os ataques à rede energética da Ucrânia, causando apagões em todo o país.
Prisioneiros de guerra e detidos civis relacionados ao conflito
As autoridades e forças militares russas continuaram a torturar e maltratar sistematicamente prisioneiros de guerra ucranianos e civis sob sua custódia, o que constitui crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Muitos detidos permanecem em condições prisionais atrozes, onde são privados de alimentação, higiene e cuidados médicos adequados. Em março, a Comissão Internacional Independente de Inquérito da ONU concluiu que as autoridades russas cometeram desaparecimentos forçados e tortura como crimes contra a humanidade, observando que esses abusos foram “conforme uma política estatal coordenada”.
Ao longo do ano, mais de mil militares e civis ucranianos foram libertados por meio de trocas de prisioneiros. De acordo com as autoridades ucranianas, a Rússia continua a deter mais de 8.000 prisioneiros de guerra ucranianos e milhares de civis.
As autoridades ucranianas transferiram para a Rússia alguns de seus próprios cidadãos, condenados por colaboração, um desenvolvimento preocupante dado o desafio já complexo de garantir o retorno de civis ucranianos detidos ilegalmente na Rússia.
Uma investigação aprofundada da mídia publicada em maio documentou a morte de pelo menos 206 prisioneiros de guerra ucranianos em prisões russas. O relatório forneceu mais evidências da tortura sistemática de prisioneiros de guerra ucranianos pela Rússia, bem como das tentativas da Rússia de ocultar abusos e a falta de cuidados médicos adequados.
Os promotores ucranianos relataram que as forças russas executaram extrajudicialmente 268 prisioneiros de guerra ucranianos desde fevereiro de 2022. Entre dezembro de 2024 e maio de 2025, a HRMMU verificou 36 execuções de ucranianos fora de combate.
Um relatório do Mecanismo de Moscou da OSCE publicado em setembro documentou os abusos generalizados e os maus-tratos deliberados da Rússia contra prisioneiros de guerra ucranianos, revelando uma “falha sistemática” no cumprimento das normas exigidas pelo direito internacional. O relatório afirmou que essas violações podem constituir crimes de guerra e, em alguns casos, crimes contra a humanidade.
Em abril, o corpo da jornalista ucraniana Viktoriia Roshchyna, de 27 anos, foi devolvido à Ucrânia. Em setembro, o Ministério Público ucraniano informou que Roshchyna, que desapareceu no território ocupado pela Rússia em 2023, havia morrido em um centro de detenção na região de Perm, na Rússia. Um exame forense revelou que o corpo de Roshchyna apresentava sinais consistentes com tortura.
As autoridades ucranianas têm sido implicadas em abusos durante a detenção de prisioneiros de guerra russos. A HRMMU documentou casos de tortura e maus-tratos a prisioneiros de guerra russos antes de sua transferência para instalações oficiais de internamento, bem como espancamentos e abusos verbais no momento da admissão.
Em janeiro, uma coalizão de grupos de direitos humanos lançou a campanha “People First” (Pessoas em Primeiro Lugar), instando todas as partes envolvidas nas negociações de paz a priorizar a libertação incondicional de todos os civis ucranianos detidos e a tornar a libertação e repatriação de prisioneiros de guerra de ambos os lados uma prioridade máxima nas negociações.
Abusos sob a ocupação russa
As autoridades russas continuaram seus esforços para integrar à força as áreas ocupadas da Ucrânia, impondo leis e estruturas administrativas russas nesses territórios, em violação ao direito internacional.
A Rússia intensificou os esforços para coagir os residentes das áreas ocupadas a aceitar a cidadania russa. Um decreto presidencial de março exigiu que os residentes das partes ocupadas pela Rússia das regiões de Zaporizka, Khersonska, Donetska e Luhanska “regularizassem seu status legal” até 10 de setembro ou enfrentassem a expulsão. De acordo com o decreto, os ucranianos sem passaporte russo estão sujeitos às regulamentações de residência da Rússia e correm o risco de deportação forçada, o que pode constituir um crime contra a humanidade. O impacto do decreto não estava claro no momento da redação deste relatório.
Em março, as autoridades russas informaram ter emitido 3,5 milhões de passaportes para residentes na Ucrânia oriental ocupada pela Rússia desde o início do processo de “passaporteização” em massa. Pesquisas de grupos da sociedade civil sugerem que as forças russas usaram ameaças, privação de benefícios sociais e restrições ao acesso à saúde, educação, liberdade de movimento, emprego e restrições de direitos de propriedade para coagir os residentes a aceitar passaportes russos.
As autoridades russas continuaram a recrutar civis ucranianos em áreas ocupadas para as forças armadas russas e a coagi-los a servir no exército russo, o que constitui um crime de guerra segundo o direito internacional. Em março, o presidente Putin assinou um decreto lançando uma campanha de recrutamento na primavera, que incluía áreas ocupadas.
As autoridades russas continuaram a submeter as crianças ucranianas que vivem nas áreas ocupadas a uma educação militar-patriótica. Segundo relatos, os funcionários da ocupação treinaram crianças ucranianas como operadores de drones. Algumas crianças receberam notificações de alistamento no exército russo um ano antes de atingirem a idade de alistamento, levando as famílias a fugir.
As autoridades russas continuaram a reprimir a identidade, a língua e a cultura ucranianas nas áreas ocupadas, impondo o currículo russo e tornando o russo a única língua de ensino nas escolas. As restrições impostas pelo governo russo, em agosto, ao uso de aplicativos populares de mensagens instantâneas na Rússia e nos territórios ocupados pela Rússia dificultaram ainda mais o acesso à educação online ucraniana.
Em 2025, a escassez de água piorou nas áreas ocupadas, especialmente na região de Donetska, devido aos danos anteriores à infraestrutura de abastecimento de água. Os residentes de Donetsk, que tinham água encanada apenas algumas horas a cada três dias, foram forçados a fazer fila em caminhões-pipa, levando os moradores locais a descrever a situação como uma “catástrofe humanitária e ecológica”.
As autoridades de ocupação intensificaram os esforços para confiscar ilegalmente propriedades privadas que consideravam “não utilizadas”. Aplicando as leis adotadas em 2024 que privam os ucranianos que fugiram das áreas ocupadas de seus direitos de propriedade, até novembro, as autoridades de ocupação emitiram notificações relativas a mais de 20,000 propriedades nas regiões de Donetska, Luhanska, Zaporizka e Khersonska. Essas regulamentações, que exigem que os proprietários apresentem um passaporte russo pessoalmente dentro de 30 dias após o recebimento da notificação para manter sua propriedade, violam o direito internacional.
Crimeia
A situação dos direitos humanos na Crimeia ocupada pela Rússia continuou grave. As autoridades de ocupação russas continuaram a perseguir membros politicamente ativos da comunidade étnica tártara da Crimeia e outros críticos das ações da Rússia na Crimeia. Organizações de direitos humanos relataram que, em meados de 2025, 220 pessoas enfrentavam processos judiciais por motivos políticos na Crimeia, incluindo mais de 130 tártaros.
Em setembro, a União Europeia sancionou dois funcionários russos de alto escalão do Serviço de Execução Penal na Crimeia ocupada por seu envolvimento em maus-tratos e negação de cuidados médicos a detidos. Entre as vítimas estavam, entre outros, os defensores dos direitos humanos Iryna Danylovych e Amet Suleymanov.
As autoridades russas continuaram a doutrinação e o treinamento militar de crianças e adolescentes na Crimeia ocupada. As autoridades pressionaram e puniram crianças por expressarem opiniões pró-Ucrânia.
Lacunas na proteção de pessoas deslocadas internamente e refugiados
Pessoas deslocadas internamente (PDI)
Pelo menos 3,8 milhões de ucranianos estavam registrados como deslocados internos em abril, com a maioria enfrentando dificuldades devido à perda de renda e moradia. Idosos, mães e pais solos e pessoas com deficiência dependiam fortemente da ajuda estatal e humanitária, que foi reduzida após uma diminuição no financiamento dos EUA. Uma pesquisa realizada em abril revelou que 69% dos deslocados internos acreditavam que a guerra havia afetado negativamente sua saúde mental.
Em 2025, vários programas governamentais forneceram apoio aos deslocados internos, incluindo subsídios mensais, moradia e um programa de financiamento habitacional simplificado. O governo também ofereceu uma compensação limitada pela perda de propriedades nos territórios ocupados pela Rússia, mas a implementação desses programas foi desafiadora e não proporcionou soluções habitacionais duradouras, o que gerou críticas do Ombudsman ucraniano.
Em abril, o parlamento aprovou, em primeira votação, um projeto de lei para fortalecer o apoio aos deslocados internos, garantindo assistência financeira, mecanismos de evacuação e integração nas comunidades de acolhimento. No momento da redação deste relatório, o projeto de lei estava pendente de aprovação final.
Refugiados
Em setembro, cerca de 5,7 milhões de ucranianos que fugiram da guerra permaneciam como refugiados no exterior, com 90% deles residindo em países da UE. Embora seu status de proteção temporária tenha sido prorrogado até março de 2027, alguns países da UE, incluindo Polônia, Alemanha, Hungria, Países Baixos e Irlanda, reduziram a assistência financeira e/ou limitaram o acesso à moradia para refugiados ucranianos. Em setembro, os Estados-membros da UE adotaram um acordo comum para a eliminação gradual do estatuto de proteção temporária dos ucranianos e para o seu potencial regresso e reintegração na Ucrânia.
As disparidades aparentes nos benefícios sociais, em comparação com os concedidos às populações locais, contribuíram para sinais de declínio da simpatia pública pelos refugiados ucranianos. Uma pesquisa realizada em março revelou que os refugiados ucranianos na Itália, Polônia, República Tcheca e Alemanha relataram ter sofrido altos níveis de hostilidade por parte da população local.
Nos Estados Unidos, aproximadamente 250.000 ucranianos solicitaram a inclusão no programa humanitário Uniting for Ukraine (U4U). Em janeiro, o programa foi suspenso como parte de restrições mais amplas à imigração, impedindo novos pedidos de permissão migratória humanitária para ucranianos. Com as autorizações iniciais de dois anos expirando em 2025, muitos ucranianos agora correm o risco de perder seu status legal, o que pode resultar em prisão ou deportação.
Liberdade de expressão
Ativistas anticorrupção e meios de comunicação independentes foram alvo de perseguições. Em meados de julho, as autoridades ucranianas invadiram a casa e o local de serviço militar de um proeminente ativista anticorrupção, Vitaliy Shabunin, como parte de uma investigação sobre suposta evasão militar e fraude. As invasões foram realizadas sem as devidas ordens judiciais e incluíram outras violações do devido processo legal. O Centro de Ação Anticorrupção, cofundado por Shabunin, relacionou as invasões e a investigação contra ele ao trabalho do centro na denúncia da corrupção.
Uma empresa de construção militar ucraniana pressionou o Kyiv Independent, um veículo de notícias ucraniano em língua inglesa, exigindo em setembro que o veículo retirasse uma publicação que a mencionava e ameaçando apresentar uma queixa ao Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU), alegando alta traição e auxílio a um Estado agressor. A redação do veículo recusou as exigências.
Em setembro, o parlamento da Ucrânia retomou as transmissões ao vivo de suas sessões, suspensas por motivos de segurança em fevereiro de 2022, em resposta aos apelos de grupos da sociedade civil para melhorar a confiança pública e a prestação de contas.
Um projeto de lei apresentado ao parlamento em setembro e aprovado em primeira votação em novembro permite que informações investigativas publicadas sejam tratadas como difamatórias até que um tribunal decida o contrário. Organizações ucranianas e internacionais instaram o parlamento a rejeitar o projeto de lei, argumentando que ele permitiria ações judiciais estratégicas contra a participação pública e poderia prejudicar as investigações anticorrupção e a liberdade de imprensa.
Um projeto de lei, que restringe o acesso a decisões judiciais em casos de “interesse público especial” durante a lei marcial e por um ano após o seu término, permaneceu pendente no parlamento, apesar dos pedidos de grupos de direitos humanos e da sociedade civil para que seja rejeitado.
Estado de direito
As autoridades ucranianas continuaram a aplicar leis anticolaboração com a Rússia excessivamente amplas e vagas. Em novembro, a HRMMU constatou que, em 72 de 950 casos judiciais analisados do período compreendido entre dezembro de 2024 e maio de 2025, as acusações de colaboração diziam respeito a trabalhos que os funcionários poderiam ser legalmente obrigados a realizar por uma potência ocupante, nos termos do direito internacional.
Em julho, agentes da SBU realizaram dezenas de buscas visando funcionários do Departamento Nacional Anticorrupção (NABU), supostamente com violações do devido processo legal, e acusaram os funcionários de “cooperação com o Estado agressor” e traição. O NABU condenou a ação como uma tentativa de pressionar e obstruir suas investigações.
Também em julho, uma nova legislação, rapidamente adotada, minou a independência do NABU e de outro órgão anticorrupção importante, o Ministério Público Especializado Anticorrupção (SAPO ). A lei ampliou a autoridade do procurador-geral para reatribuir casos do NABU, levantando preocupações sobre interferência política nas investigações de corrupção de alto nível. Apesar dos pedidos para vetar o projeto de lei, o presidente Zelensky o sancionou no mesmo dia. Após dias de protestos em massa em Kiev e outras cidades e críticas intensas do Parlamento Europeu, as autoridades revogaram a legislação, restaurando a independência de ambas as instituições.
O estabelecimento de instituições anticorrupção independentes é um requisito fundamental para a integração da Ucrânia na UE. No momento da redação deste artigo, a candidatura da Ucrânia à adesão à UE continuava paralisada, com a Hungria bloqueando a abertura das negociações de adesão.
Em novembro, as agências anticorrupção da Ucrânia alegaram que funcionários de alto escalão estavam envolvidos em um esquema de corrupção no setor energético estatal. Após as alegações, o governo demitiu dois ministros implicados no escândalo. O presidente Zelensky também anunciou a renúncia de seu chefe de gabinete, Andriy Yermak, horas depois que agentes anticorrupção revistaram a residência de Yermak.
Em agosto, o Serviço Estatal de Etnopolítica e Liberdade de Consciência utilizou a lei de 2024 sobre organizações religiosas para designar a Igreja Ortodoxa Ucraniana (UOC), uma das maiores organizações religiosas da Ucrânia, como uma entidade afiliada à Igreja Ortodoxa Russa, que é proibida na Ucrânia. O serviço estatal iniciou um processo judicial para dissolver a filial da UOC em Kiev, o que poderia levar a restrições aos seus direitos de propriedade e acesso a locais de culto.
Em julho, o parlamento aprovou uma lei que permite a múltipla cidadania, que entrará em vigor em 2026. Organizações de direitos humanos criticaram as disposições da lei que permitem a revogação da cidadania ucraniana para aqueles que “voluntariamente” adquirem passaportes russos, alertando que as definições vagas da lei não levavam em conta a coerção generalizada usada pelas autoridades russas nos territórios ocupados e poderiam levar os ucranianos a perder sua nacionalidade como resultado de serem forçados a adquirir passaportes russos.
Responsabilidade por crimes internacionais graves e reparações
Em 1º de janeiro, a adesão da Ucrânia ao Estatuto de Roma, o tratado fundador do Tribunal Penal Internacional, entrou em vigor. Ao aderir ao Tribunal, a Ucrânia invocou o artigo 124 do tratado, que permite limitar a jurisdição do TPI sobre crimes de guerra cometidos por seus próprios cidadãos por sete anos.
O Gabinete do Procurador-Geral da Ucrânia criou um grupo de trabalho com especialistas jurídicos e representantes da sociedade civil para abordar as reformas necessárias para incorporar plenamente o Estatuto de Roma na legislação nacional.
Em junho de 2025, a Ucrânia e o Conselho da Europa (CoE) assinaram um acordo para estabelecer um tribunal especial para julgar altos funcionários russos pelo crime de agressão.
O Registro de Danos para a Ucrânia, lançado pelo Conselho da Europa em 2023, abriu 14 categorias de requerimentos para documentar perdas, ferimentos e destruição causados pela guerra da Rússia. O Registro serve principalmente como um mecanismo de manutenção de requerimentos, enquanto os mecanismos de indenização e as fontes de financiamento — potencialmente provenientes de ativos russos congelados — permanecem indefinidos. Em fevereiro, a Rússia designou o Registro como uma “organização indesejável”, uma medida que representa um obstáculo significativo às reparações e provavelmente impedirá os residentes das áreas ocupadas de apresentar requerimentos e acessar futuras indenizações.
Entrou em vigor em julho uma lei que codifica, na legislação nacional, a definição de violência sexual relacionada a conflitos e prevê reparações provisórias. No momento da redação deste relatório, o governo ainda não havia adotado os regulamentos necessários para implementá-la.