Nilsa Hernandez. Agosto de 2018.

© 2018 Human Rights Watch
Por Tamara Taraciuk Broner e Kathleen Page
 
A versão em espanhol de esta matéria será publicada em breve na revista Ethic e em ethic.es
 
Nilsa Hernández sorria enquanto nos entregava pratos caseiros com arroz e feijão. Estava quente e úmido em Boa Vista, no estado de Roraima, região norte do Brasil; e Nilsa estava morando em uma pequena casa com cortinas coloridas em vez de portas, mas estava orgulhosa de receber visitas, mesmo de desconhecidos. Nos sentamos em banquinhos de plástico e em um banco de madeira no quintal de terra, sob a sombra refrescante de uma velha árvore. Desenraizada aos 61 anos de sua casa, no estado venezuelano de Bolívar, Nilsa encontrou no Brasil tanto um refúgio quanto uma vocação.
 
Ela testou positivo para o HIV há treze anos e começou a tomar medicamentos antirretrovirais nove anos depois. Como muitos outros venezuelanos, ela recebeu tratamento ininterrupto até dois anos atrás. No início, houve escassez de um ou dois dos três remédios que ela tomava, mas, desde a metade de 2017, nenhum dos medicamentos que precisava para o HIV estava disponível na Venezuela. Em janeiro de 2018, ela usou o dinheiro que havia economizado para atravessar a fronteira para o Brasil.

Ela conhecia pessoas que estavam morrendo devido ao HIV na Venezuela e não queria ser mais uma na estatística. "Eu quero viver", ela disse.

Nilsa é uma das dezenas de milhares de venezuelanos com HIV que não conseguem tratamento adequado no seu país. A Venezuela é o único país de renda média no mundo onde um grande número de pessoas com HIV é forçado a interromper o tratamento devido à escassez generalizada de medicamentos antirretrovirais.

Essa escassez é parte de um problema muito mais amplo no acesso a cuidados de saúde e a medicamentos na Venezuela. Os surtos de sarampo e difteria estão crescendo, segundo os poucos dados disponíveis, e os casos de malária e tuberculose atingiram os números mais elevados em 30 anos. A crescente desnutrição agrava a crise de saúde, tornando os venezuelanos mais suscetíveis a doenças infecciosas e mais propensos a complicações quando estão doentes.

Uma porcentagem alarmante de 87%  entre mais de 79 mil venezuelanos com HIV não está recebendo o tratamento antirretroviral para o qual está cadastrada no sistema de saúde pública venezuelano, informou a Organização Pan-Americana de Saúde em junho. Segundo o relatório, quinze dos 25 medicamentos antirretrovirais que eram fornecidos pelo governo estão esgotados há mais de nove meses, e há pouca oferta de medicamentos para tratar infecções oportunistas.

Para piorar a situação, outro relatório da Organização Pan-Americana da Saúde, UNAIDS e o Ministério da Saúde da Venezuela relata que os casos de HIV recém identificados aumentaram 24% entre 2010 e 2016 e que as mortes relacionadas à AIDS cresceram 38%. Isso é chocante. Durante este período, em todo o mundo, novas infecções por HIV diminuíram 18% e as mortes relacionadas à AIDS 34%, de acordo com a UNAIDS.

O relatório observou que, apenas em 2016, houve 6.500 novas infecções. Infelizmente, o número real é sem dúvida maior. Muitos centros de saúde não conseguem mais realizar testes de HIV, nem mesmo em mulheres grávidas ou para testar o sangue utilizado em transfusões. Os preservativos são muito caros para a maioria das pessoas. A falta de tratamento do HIV não está resultando somente em mortes evitáveis, mas também estimula a transmissão do HIV. Pessoas com HIV que recebem o tratamento adequado dificilmente transmitem o HIV para outras pessoas, mas sem tratamento, parceiros sexuais e até mesmo os bebês de mães com HIV podem ser infectados.

Quando chegou pela primeira vez em Boa Vista, Nilsa morava nas ruas,  como muitos outros venezuelanos que também fugiram do seu país. Um dia, ela contou a uma jornalista brasileira que seu sonho não era apenas encontrar tratamento para ela, mas ajudar outros que estão vivendo o mesmo pesadelo. A jornalista a ajudou com o aluguel da humilde casa onde nos recebeu. Ela também ajudou Nilsa a montar um projeto chamado “Pessoas corajosas pela vida” (Valientes por la vida), que apoia venezuelanos com HIV que se mudam para o Brasil em busca de tratamento. Para financiar seu projeto, Nilsa vende sorvete na rua.

Embora o projeto da Nilsa seja único, testemunhamos muitos gestos de solidariedade durante os dias que entrevistamos migrantes venezuelanos no Brasil – pessoas compartilhando cobertores, alimentos, histórias e conselhos.

Oitenta por cento dos 3 milhões de pessoas que deixaram a Venezuela desde 2014 ficaram na América Latina e no Caribe, e a onda massiva de migrantes inundou especialmente as regiões fronteiriças. Cerca de 650 venezuelanos atravessam diariamente a fronteira para o Brasil, conforme um general brasileiro nos contou.

A maioria está impossibilitada de sair do remoto estado de Roraima. Uma estrada de duas pistas é a única conexão a uma grande cidade, Manaus, a quase mil quilômetros ao sul da fronteira. Poucos dos migrantes venezuelanos podem pagar pela longa viagem. Assim, o estado de Roraima precisou se desdobrar para absorver as dezenas de milhares de pessoas que chegaram até o momento.

Os venezuelanos estão sendo forçados a sair de seu país por um turbilhão de catástrofes interligadas:  a grave escassez de alimentos e remédios, a repressão implacável do governo, crimes violentos e hiperinflação. Tudo o que desejam é poder retornar às vidas que um dia tiveram. Mas enquanto não ocorre uma drástica mudança no país, eles são forçados a lutar para sobreviver no exterior, ajudando uns aos outros da melhor maneira possível.

Nilsa já forneceu abrigo e orientação para 60 pessoas corajosas (“valientes”) recém-chegadas. Graças ao tratamento antirretroviral que recebe através do sistema de saúde pública do Brasil, ela sente-se novamente esperançosa e cheia de energia. Agora está se empenhando para comprar um freezer e então conseguir produzir, armazenar e vender seu próprio sorvete e, assim, ajudar mais pessoas. Ela nunca para de sonhar.

Talvez por isso ela nunca deixou de sorrir.

Tamara Taraciuk Broner é pesquisadora sênior na divisão das Américas e cobre a Venezuela para a Human Rights Watch e Kathleen Page é professora associada e médica na Universidade Johns Hopkins.