Membros das forças armadas durante patrulha no Rio de Janeiro. 27 de fevereiro de 2018.

© REUTERS/Ricardo Moraes
Marcelo Silva Vaz, 32, e Bruno Coelho da Agonia, 26, eram amigos inseparáveis,  na vida e na morte.

“Bruno era um garoto maravilhoso”, me contou a mãe de Marcelo, Márcia Silva, enquanto o pai do Bruno olhava com tristeza. "Eles estavam sempre juntos."

Os pais disseram que os jovens se conheceram em 2010, quando trabalhavam em uma fábrica de conservas de atum no Rio de Janeiro. Bruno era solteiro e gostava de música romântica; vivia em uma casa nos fundos da da casa de seus pais. Marcelo, pai de quatro filhos, era voluntário em um projeto que levava crianças carentes para jogar frescobol na praia. Se tornou motorista de Uber após deixar a fábrica de conservas.

No dia 10 de novembro de 2017, Bruno subiu na traseira da moto de Marcelo e então foram a um baile funk na favela do Complexo do Salgueiro em São Gonçalo, próximo ao Rio de Janeiro.

Eles nunca voltaram.

Os dois foram assassinados, junto a outros cinco homens, na madrugada de 11 de novembro. Uma oitava vítima morreu em decorrência dos ferimentos semanas depois.

Como pesquisador da Human Rights Watch, obtive novos depoimentos de testemunhas que não somente revelam as terríveis cenas desencadeadas em 11 de novembro, como fornecem fortes evidências ​​de que os responsáveis pelas mortes podem pertencer ao comando de operações especiais do exército.

Membros do comando de operações especiais do exército e da Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE) – a unidade de elite da polícia civil do Rio de Janeiro – chegaram ao local em poucos minutos do tiroteio. Eles estavam conduzindo uma operação conjunta cujo objetivo ainda não foi esclarecido por seus comandantes.

As declarações do exército e da polícia civil são contraditórias e incompletas. Vinte horas após o tiroteio, o coordenador da CORE, Rodrigo Oliveira, que participou da operação, disse ao delegado encarregado da investigação que as vítimas eram homens que haviam disparado contra as forças de segurança. Dois dias depois, o Comando Militar do Leste negou qualquer ataque desse tipo.

Em suas declarações aos investigadores da polícia civil, nenhum dos membros da CORE mencionou sobreviventes ou testemunhas.

Pelo menos três homens foram feridos epassaram mais de uma hora e meia sangrando no chão. Soldados e policiais que foram ao local não fizeram nada para socorrê-los e retardaram as tentativas dos parentes de levá-los ao hospital.

Um perito criminal que analisou o local, cerca de três horas após o tiroteio, disse que alguns corpos tinham sido movidos de lugar e que a polícia não preservou a cena do crime. 

A história começou no dia 7 de novembro, quando helicópteros levaram membros das forças armadas para as áreas de mata do Complexo do Salgueiro – conforme o próprio exército admitiu. O plano era ficar à espera de suspeitos. A operação aparentemente fracassou, segundo me disse um integrante do sistema de justiça do Rio de Janeiro, uma vez que alguém alertou as facções criminosas.

Três dias depois, por volta das 23 horas, os moradores viram homens descendo de rapel de helicópteros para a área de mata perto da Estrada das Palmeiras.

Os assassinos abriram fogo contra pessoas que passavam no local por volta de uma hora da manhã. ”Leandro” voltava da casa da namorada de moto quando sentiu as balas perfurando seu corpo e caiu. Eu usei um nome fictício para ele neste artigo pelo que ele me contou: viu os atiradores saírem da área de mata; vestiam preto, tinham o rosto coberto – de forma que só dava para ver os olhos –, usavam luvas, tinham lanternas em seus capacetes, e carregavam rifles equipados com lanternas e visão a laser. Luiz Otávio Rosa dos Santos, um moto-taxista que faleceu posteriormente, disse a uma promotora do Rio de Janeiro que viu "luz vermelha" saindo dos fuzis utilizados pelos homens que atiraram contra ele.

Enquanto os assassinos atiravam nas vítimas, cerca de 30 membros do comando de operações especiais do exército e da CORE se aproximavam a bordo de três blindados. 

Leandro me disse que os assassinos estavam claramente visíveis na beira da estrada, próximos a um poste de luz, quando dois blindados passaram. Os veículos sequer pararam.

Ele ficou deitado em agonia por cerca de uma hora e 40 minutos, com metade do corpo para dentro de uma vala na beira da estrada. "Senti uma poça de sangue debaixo de mim", ele contou. Inicialmente escutava os gritos de outro homem ferido a cerca de 10 metros dele, mas os gritos diminuíram até que o homem morreu. Leandro sentia tontura e muita sede, e perdeu a consciência.

Enquanto isso, “Natália”, parente de Leandro, soube do tiroteio e tentou desesperadamente socorrê-lo. Ela disse que estava em um carro com três vizinhos, a caminho da cena do crime, quando vários homens gritaram para que parassem, apontando luzes a “laser” em seus peitos e cabeças, e ordenaram que colocassem as mãos para fora das janelas. Os homens usavam roupas pretas, rostos cobertos e capacetes com lanternas, ela me disse.

Contou ainda que outros homens na estrada e em pé nas escotilhas no topo do veículo blindado tinham os mesmos uniformes e equipamentos.

Outra mulher, passageira em um mototáxi, passou pela Estrada das Palmeiras pouco depois da 1 hora da manhã e forneceu descrição semelhante ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro. Ela disse que cinco homens com armas equipadas com visão a laser e lanternas, os pararam e , após verificarem que não carregavam armas, os deixaram passar.

Os depoimentos de que os assassinos e o comando de operações especiais do exército usavam os mesmos uniformes e carregavam o mesmo equipamento apontam para a conclusão de que os atiradores podem pertencer àquela unidade do exército.

Natália disse que ela e seus três  vizinhos resgataram Leandro e outro homem por volta das 2h40 da manhã. Ela relatou que policiais e membros do exército não somente se recusaram a ajudar, como os forçaram, mesmo transportando as vítimas, a seguir o veículo blindado que se deslocava devagar, e que impediu que eles o ultrapassassem. "Levamos meia hora para andar um quilômetro", ela disse. Eles chegaram ao hospital por volta das 4 da manhã.

O mototaxista Luiz Otávio disse à promotora estadual que parentes o encontraram apenas por volta das 6h da manhã. Ele morreu semanas depois devido aos ferimentos.

De acordo com a legislação brasileira, deixar de prestar assistência a uma pessoa ferida ou não acionar serviços de emergência é um crime punível com até 18 meses de detenção, se resultar na morte da vítima.

Os homicídios ocorreram semanas após entrar em vigor uma lei que afasta da justiça comum o julgamento de membros das forças armadas envolvidos na morte de civis durante operações de segurança pública. Com a nova lei, apenas o Ministério Público Militar pode investigar membros das forças armadas e denunciá-los, e um tribunal composto por quatro oficiais militares e um juiz civil julga as denúncias.

Investigadores da polícia civil e promotores públicos estaduais entrevistaram membros da CORE e testemunhas civis imediatamente após o tiroteio, mas durante meses nem sequer obtiveram os nomes dos integrantes do exército que participaram da operação.

Uma procuradora de justiça militar me disse no dia 3 de maio que havia entrevistado membros das forças especiais sobre as operações de novembro, mas não havia conversado com nenhuma testemunha civil durante os seis meses que se passaram. Ela disse que pretende fazê-lo.

Enquanto isso, as famílias das vítimas sofrem em silêncio. “Meu mundo acabou”, me disse a mãe de Marcelo, Márcia Silva.

E essas famílias esperam por justiça.