Erika Kokay foi a única deputada de uma Comissão Especial da Câmara dos Deputados a votar, na semana passada, contra uma emenda constitucional que proíbe o aborto em todas as circunstâncias. Dezoito colegas deputados, todos homens, votaram a favor. Eles comemoraram cantando "vida sim, aborto não!". Se aprovada, a emenda proibiria o aborto mesmo para gravidezes decorrentes de estupro ou quando a vida da mulher está em perigo.

Nesta semana, milhares de mulheres ocuparam as ruas em 14 cidades para dizer ao Congresso que deve rejeitar a proposta. Em São Paulo, me juntei a mais de 7.000 manifestantes, incluindo minha irmã e uma amiga que levava no carrinho o filho de 2 anos. Nós levantamos cartazes com os dizeres "Todas contra 18", "Ventre Livre", e cantamos "É pela vida das mulheres".

Nós estávamos ali para lembrar os deputados que diziam "vida sim" de que ignoraram as 47 mil mulheres que morrem anualmente em todo o mundo devido a abortos inseguros, segundo dados da Organização Mundial de Saúde.

A situação não é diferente no Brasil, onde mais de 900 mulheres morreram de abortos inseguros desde 2005. Médicos contaram à Human Rights Watch sobre tratarem mulheres que usaram métodos perigosos para induzir abortos, como a inserção de produtos químicos purificadores de água em suas vaginas.

Estima-se que 416 mil mulheres tiveram abortos em 2015 no Brasil, a grande maioria de forma ilegal. A lei brasileira permite o aborto somente se a vida da mulher estiver em risco, se a gravidez resultar de estupro, ou se o feto tiver anencefalia – uma malformação congênita fatal.

Eliminar até mesmo as limitadas hipóteses em que o aborto é permitido no país só colocaria em risco mais meninas e mulheres, especialmente as pobres, que têm mais chances de recorrer a procedimentos inseguros que podem levar à hemorragia, infecção e morte.

Em vez de proibir o aborto, o Congresso deveria torná-lo muito mais acessível.