(Nova York) – As mulheres na Arábia Saudita já avançaram na práticade esportes por razões de saúde, participação em competições ou oportunidade profissional – mas grandes barreiras persistem, disse hoje a Human Rights Watch. Às vésperas das Olimpíadas no Rio, o governo saudita, incluindo a nova divisão feminina da autoridade desportiva saudita, devem remover as restrições restantes ao esporte em escolas, empresas, federações e esportes coletivos.

Quatro mulheres representarão o país no Rio, um pequeno progresso se comparado às duas que competiram nas Olimpíadas de Londres em 2012. Mas dentro da Arábia Saudita, a discriminação ainda dificulta o acesso de mulheres e meninas ao esporte, mesmo em escolas públicas. Isto faz parte de um contexto de discriminação generalizada que diariamente restringe a vida das mulheres na Arábia Saudita. Mulheres não podem viajar para fora do país, casar ou sair da prisão sem a permissão de um tutor homem, e podem ser obrigadas a apresentar o consentimento desse tutor para trabalhar ou receber tratamento médico. Elas não têm permissão para dirigir.

Nos Jogos Olímpicos de 2012 em Londres, Sarah Attar representa a Arábia Saudita como a primeira corredora olímpica do país, competindo no evento de 800 metros para mulheres.

© 2012 Getty Images

“As mulheres sauditas estão alcançando enormes avanços no mundo dos esportes - escalando as maiores montanhas e nadando por rios inteiros”, disse Minky Worden, diretora de iniciativas globais na Human Rights Watch. “Elas estão mostrando determinação, talento, esforço e coragem apesar dos intimidadores obstáculos legais, culturais e religiosos. Com a abertura das Olimpíadas no Rio, a Arábia Saudita precisa mudar o jogo e chamar a atenção para a profunda discriminação que atrapalha a participação esportiva de mulheres e meninas do país.”

O relatório Steps of the Devil, publicado em 2012 pela Human Rights Watch, examinou em profundidade o que era à época a proibição efetiva sobre a participação de mulheres e meninas sauditas em esportes e educação física no país, assim como seus efeitos negativos, inclusive para a saúde.

As mulheres sauditas estão alcançando enormes avanços no mundo dos esportes – escalando as maiores montanhas e nadando por rios inteiros.

Minky Worden

Diretora de iniciativas globais

A Arábia Saudita discrimina mulheres e meninas ao negar a elas as mesmas oportunidades para se exercitarem e praticarem esportes que homens e meninos têm. Até julho de 2016, mulheres não podiam assistir ou participar de campeonatos nacionais ou ligas esportivas organizadas pelo governo. No entanto, em uma ação positiva no dia 1º de agosto, a Autoridade Geral de Esportes, que funciona como um ministério dos esportes, anunciou a criação de uma nova divisão para mulheres e nomeou a Princesa Reema Bint Bandar Al Saud para liderá-la.

As mulheres sauditas ainda não têm acesso à infraestrutura esportiva pública. Elas não podem participar de campeonatos nacionais ou ligas esportivas organizadas pelo governo - nem sequer comparecer a um jogo do time nacional masculino como espectadoras. Os mais de 150 clubes esportivos oficiais regulados e apoiados pela Autoridade Geral de Esportes não são facilmente acessíveis às mulheres, e os campeonatos nacionais organizados por ela são apenas para homens. O Comitê Olímpico da Arábia Saudita ainda não tem uma divisão feminina.

“A criação de uma nova divisão para mulheres no âmbito da Autoridade Geral de Esportes é um passo bem-vindo: a divisão deve promover reformas no acesso das mulheres aos esportes e atividades físicas no país”, disse Worden.

O país já fez algumas mudanças positivas, ainda que limitadas. Embora a Human Rights Watch não tenha obtido respostas claras a suas solicitações ao governo sobre a educação física para meninas em escolas públicas, relatórios públicos nos últimos anos indicam que certas escolas do governo agora oferecem educação física para elas. Escolas privadas já podem oferecer educação física há muito tempo e, em maio de 2013, as autoridades sauditas decidiram que esses programas podem continuar, desde que as garotas usem “roupas decentes” e sejam supervisionadas por instrutoras femininas.

Mulheres também estão abrindo academias exclusivamente femininas por todo o país. Mas os maiores desafios – oficiais, religiosos, burocráticos e culturais – permanecem para aquelas que querem praticar esportes por razões de saúde, por diversão ou para competir. Algumas mulheres sauditas dizem não ter outra opção a não ser sair do país para tornarem-se treinadoras ou atletas de alto rendimento.

A Human Rights Watch entrevistou diversas mulheres sauditas, incluindo atletas, ativistas, médicas, treinadoras e empresárias que descreveram como estão reivindicando o direito de praticar esportes e de abrir novas academias e clubes esportivos. Uma defensora de exercícios físicos para mulheres está usando sua posição na Câmara de Comércio para garantir mais academias para elas. Outras desafiam as barreiras impostas ao gerenciar, como negócio, equipes esportivas femininas privadas , abrindo academias e clubes esportivos não licenciados, a despeito da recusa do governo em legitimá-los, pressionando as autoridades e treinando dentro e fora da Arábia Saudita para representar o país em competições internacionais.

Um esforço sério para conduzir reformas na gestão das escolas públicas, no licenciamento de academias e clubes esportivos e no treinamento de professores de educação física por parte da Autoridade Geral de Esportes, dos ministérios da Saúde e da Educação e do Comitê Olímpico Saudita, poderia trazer um impacto positivo e duradouro nas vidas e bem-estar de milhões de mulheres e meninas no país e ajudá-las a exercerem seu direito de igualdade na prática de esportes.

A Visão 2030 da Arábia Saudita, um novo plano para o crescimento econômico e o desenvolvimento do país, divulgado em 2016, também pode melhorar o acesso ao esporte para mulheres e meninas. O documento declara: “As oportunidades para prática regular de esportes são muitas vezes limitadas. Isso mudará”. As autoridades sauditas devem cumprir esta promessa, permitindo e encorajando mulheres e meninas nos esportes.

A Carta Olímpica afirma que “Todo e qualquer indivíduo deve ter a possibilidade de praticar esporte, sem qualquer forma de discriminação e de acordo com o espírito olímpico” Em dezembro de 2014, o Comitê Olímpico Internacional (COI) aprovou unanimemente um conjunto de reformas chamado “Agenda Olímpica 2020”, que tornou a igualdade de gênero um elemento central do movimento olímpico. Entre outras reformas-chave, a agenda do COI impede pela primeira vez a escolha de países que discriminem mulheres e meninas para sede dos Jogos.

Em janeiro de 2015, o presidente do COI, Thomas Bach, rejeitou a sugestão da Arábia Saudita de que o país poderia sediar conjuntamente uma Olimpíada segregada, juntamente com o Bahrein, onde homens competiriam na Arábia Saudita e mulheres no país vizinho. Bach declarou que a Arábia Saudita terá sua candidatura negada até que cumpra as regras contra discriminação. “Um compromisso pela ‘não discriminação’ será obrigatório para todos os países que desejem se candidatar para as Olimpíadas no futuro”, disse Bach. “Países como a Arábia Saudita devem esforçar-se para garantir que as atletas mulheres participem livremente”.

De acordo com a determinação da Carta Olímpica de que a discriminação é incompatível com os ideais do movimento Olímpico e com a missão do COI de erradicar tais discriminações, o Comitê deve incentivar a Arábia Saudita a acelerar as reformas de modo a acabar com a discriminação contra mulheres e meninas nos esportes, bem como em outras áreas de suas vidas. O COI deveria trabalhar junto às autoridades sauditas para encorajar reformas, como a implementação de programas de educação física obrigatórios em escolas públicas femininas, a criação de uma divisão feminina dentro do Comitê Olímpico Saudita e de federações esportivas para mulheres, e a remoção de quaisquer obstáculos para a participação de mulheres em competições internacionais como os Jogos Olímpicos da Juventude.

A Arábia Saudita tem prometido repetidamente, e é obrigada internacionalmente, a tomar medidas imediatas para acabar com a discriminação contra mulheres e meninas. O COI deve fazer sua parte para encorajar e ajudar a Arábia Saudita a alcançar tais objetivos o mais breve possível. Caso contrário, outra geração de meninas sauditas poderá crescer sem a oportunidade de praticar esportes e usufruir de seus benefícios à saúde.

Recomendações

O Governo Saudita Deve:

  • Agir conforme a recomendação do Conselho de Shura de 2014 e introduzir a obrigatoriedade de educação física em escolas públicas durante todos os anos de educação compulsória, e criar um cronograma claro para tanto;
  • Garantir que mulheres possam se tornar instrutoras de educação física nas escolas;
  • Criar uma divisão de mulheres no Comitê Olímpico Saudita;
  • Estabelecer federações de esporte para mulheres e permitir que tais federações possam competir no país e internacionalmente;
  • Oferecer recursos financeiros, treinamento e apoio a mulheres que queiram competir em campeonatos esportivos internacionais assim como ocorre para homens, e inscrever mulheres essas mulheres nas competições internacionais e;
  • Permitir que mulheres sauditas compareçam a eventos esportivos em estádios nacionais, inclusive para assistir aos times masculinos.

“Mulheres e meninas na Arábia Saudita deveriam ser capazes de realizar seus sonhos de praticar esportes, desde as atividades na escola primária até a conquista de medalhas de ouro”, disse Worden. “Autoridades sauditas devem discutir a discriminação de gênero nos esportes, não apenas porque é necessário de acordo com o direito internacional dos direitos humanos, mas também porque isso traria benefícios duradouros à saúde e bem-estar da próxima geração de meninas sauditas”.

Como Mulheres Sauditas estão Virando o Jogo em prol da Igualdade nos Esportes
As 13 milhões de mulheres e quatro milhões de meninas sauditas sofrem discriminação severa em todos os aspectos de suas vidas. O sistema de tutela masculina no país exige que as mulheres obtenham permissão de um tutor para poder viajar para fora do país ou casar, e ainda podem ser obrigadas a apresentar a permissão do tutor para trabalhar ou receber tratamento médico. Este sistema, e os problemas relacionados à segregação por gênero, são o pano de fundo de outras restrições no dia-a-dia das mulheres na Arábia Saudita, inclusive em relação a prática de exercícios para condicionamento físico ou participação em esportes.

Existem discussões e debates contínuos na Arábia Saudita sobre os benefícios das atividades físicas para as mulheres e a urgência de uma reforma para garantir a elas o acesso aos esportes.

Na Arábia Saudita, escolas são segregadas por gênero. Muitas escolas para meninas não incluem educação física ou programas esportivos no currículo. No entanto, as escolas primárias, intermediárias e a maioria das secundárias para meninos têm aulas de educação física obrigatórias. Desde 2013, escolas privadas podem oferecer educação física para meninas desde que elas usem “vestimentas decentes” e sejam supervisionadas por instrutoras mulheres.

Em 2011, o Ministério da Educação escreveu para a Human Rights Watch que, “a questão da educação física para meninas está sendo seriamente considerada como uma das prioridades da liderança do ministério, que acredita que a educação física nas escolas é uma necessidade para manter os estudantes, tanto meninos quanto meninas, em boa saúde”.

Em abril de 2014, o Conselho Shura, um grupo de conselheiros do rei, instruiu o Ministro da Educação a estudar a possibilidade de introduzir a obrigatoriedade de educação física para meninas em escolas públicas, em conformidade com as regras Sharia de vestimenta e segregação de gênero. O conselho, surpreendentemente, votou a favor da recomendação por 92 votos a 18. No entanto, em março de 2015, o então Ministro da Educação Azzam al-Dakhil declarou que mesmo que a educação física seja introduzida em escolas públicas femininas, ela não será obrigatória.

A Arábia Saudita ainda não incorporou a educação física como parte obrigatória do currículo nas escolas públicas para meninas.

Apesar da falta de avanços por parte do governo, algumas escolas públicas oferecem algum acesso a atividades físicas para garotas. Em 2012, uma escola pública na Província Leste ergueu cestas de basquete e permitiu que as estudantes jogassem nos intervalos. O jornal Saudita al-Watan relatou que a instituição foi a primeira escola pública feminina a abertamente incentivar os esportes. Em março de 2015, logo após o ministro da educação ter divulgado que a educação física não seria obrigatória, o jornal Okaz publicou que cinco escolas públicas em Ha’il haviam introduzido programas esportivos para meninas. Entretanto, não há indícios de que a maioria das escolas tenha seguido esta decisão.

“Warda”, que assim como outras mulheres entrevistadas pela Human Rights Watch pediu para não divulgar seu nome verdadeiro, é uma mulher saudita que dirige um clube privado de esportes para meninas na Arábia Saudita. Ela contou à Human Rights Watch que “a maioria das escolas públicas para meninas ainda não tem aulas de esportes ou educação física”. Ela observou que introduzir tais programas exigiria equipar e oferecer às escolas femininas novas instalações e instrutores treinados.

Infraestrutura Esportiva Pública na Arábia Saudita
A Arábia Saudita não oferece às mulheres acesso igualitário à infraestrutura esportiva pública. Mulheres não podem comparecer a jogos masculinos como espectadoras ou participar de campeonatos nacionais ou ligas esportivas. Nenhum dos mais de 150 clubes esportivos oficiais regulamentados e apoiados pela Autoridade Geral de Esportes é aberto para mulheres e os campeonatos organizados pela autoridade são apenas para homens.

Em abril 2015, o Conselho Shura reafirmou sua recomendação à Presidência Geral do Bem-Estar da Juventude (PGBJ), o órgão agora renomeado para Autoridade Geral de Esportes, para que esta estabeleça uma divisão de mulheres. Em 1º de agosto, a Autoridade Geral de Esportes cumpriu a recomendação e criou o novo departamento. Contudo, o Comitê Olímpico Saudita continua sem uma divisão feminina oficial.

Muitas atletas na Arábia Saudita declaram ter dificuldades em encontrar treinamento profissional, e muitas precisam treinar fora do país frequentemente, pagando as despesas com recursos próprios ou de suas famílias.

“Amal”, uma atleta saudita de artes marciais e que vive fora do país, disse: “Eu estou acostumada a treinar todos os dias, então quando entro de férias por três ou quatro semanas e vou para lá [Arábia Saudita], não tenho onde treinar… Eu entro em contato com as escolas (de artes marciais), e existem algumas, mas apenas para homens, é claro.”

Em 2013, Roha Moharrak, de 27 anos, fez história ao tornar-se a primeira mulher saudita e a mais jovemárabe a alcançar o topo do Monte Everest. Entretanto, ela afirma que as dificuldades que enfrentava para treinar por ser mulher na Arábia Saudita eram quase insuperáveis: “Não existiam instalações de treinamento abertas, então, para treinar, eu tinha de ir com um motorista até o meio do deserto, onde enchia uma mochila de areia e corria subindo e descendo as dunas”.

Muitas mulheres sauditas tomaram suas próprias iniciativas de esportes em todo o país, criando clubes de ginástica, organizando competições esportivas para mulheres e aulas que vão do Yoga ao CrossFit.

Elas também formaram alguns times esportivos privados para basquete, badminton e futebol. Em abril, o time feminino de basquete sub-20 Jeddah United, que começou como um time privado em 2003, participou de um torneio de basquete nas Maldivas após viajar para os Emirados Árabes Unidos, Jordânia, Malásia e Estados Unidos. Durante os dez anos que se seguiram à fundação do Jeddah United pela atleta e empresária saudita Lina Almaeena, o time cresceu e tornou-se um grande pioneiro dos esportes coletivos, sendo a primeira companhia esportiva privada saudita a treinar tanto meninos quanto meninas e a promover os benefícios do exercício e dos esportes à saúde.

Professores e Treinadores Esportivos
A Autoridade Geral de Esportes, liderada pelo Príncipe Abdullah bin Mosaad bin Abdulaziz Al Saud, ainda precisa abrir instalações esportivas para mulheres e oferecer orientações claras e oportunidades de licenciamento para instrutoras esportivas, treinadoras e árbitras. Contudo, com o crescente interesse pela saúde e esportes no país, e com uma nova divisão de mulheres na autoridade, há promessas de mudanças.

“Na escola, nossas professoras de E.F. eram do Egito”, disse uma atleta saudita que frequentou uma escola privada durante o início dos anos 2000. “Nós nunca tivemos uma professora saudita que nos ensinasse E.F. e eu nunca ouvi falar de professoras sauditas de E.F.”. Mas as atletas entrevistadas pela Human Rights Watch disseram que embora a maioria das professoras e treinadoras na Arábia Saudita ainda serem estrangeiras, as mulheres estão reivindicando cada vez mais participarem, aprenderem e ensinarem esportes. Algumas mulheres estudam online para conseguirem uma certificação internacional de associações esportivas.

“Nem todas as treinadoras atuais na Arábia Saudita têm a oportunidade de tornarem-se treinadoras certificadas, então a maioria é autodidata,” disse “Salma”, que fundou uma academia para mulheres.

“Dina” é uma instrutora de ciclismo na Província Leste que é aficionada por spinning, ou ciclismo estacionário, e cofundadora de um centro de treinamento. “Academias de ginástica estão crescendo muito na Arábia Saudita, especialmente entre o público feminino. Em nosso centro, investimos em [treinar] instrutoras de ginástica sauditas. Elas vêm aprender conosco porque querem ser instrutoras.”

Através da criação de espaços para a prática de exercícios e através do treinamento, as mulheres sauditas não estão apenas criando oportunidades desportivas, mas também inovando ao fornecer para as mulheres o desenvolvimento profissional, incluindo a possibilidade de novas oportunidades de carreira para se tornarem instrutoras de academias.

Obstáculos Impostos às Academias para Mulheres
Apesar da Autoridade Geral de Esportes licenciar academias para homens, as mulheres entrevistadas pela Human Rights Watch relatam dificuldades para obter essas licenças e algumas dizem que tiveram suas academias fechadas por operarem sem elas. Em 2009 e 2010, o governo fechou várias academias privadas para mulheres, afirmando que estavam sem licença, o que gerou uma campanha online contra as interdições por parte de um grupo de mulheres sauditas, que utilizaram um slogan irônico: “Deixe ela ficar gorda.”

As mulheres ainda têm dificuldade para abrir e licenciar academias femininas. Algumas redes internacionais como a “Curves”, uma academia para mulheres, obteve licença para “fisioterapia” através do Ministério da Saúde do país. Entretanto, é um processo caro, lento e burocrático de acordo com a fundadora de um centro de exercícios para mulheres. Devido ao licenciamento ainda ser complicado, as mulheres abriram muitos “clubes de saúde” com acesso a alguns exercícios, desde aulas de yoga e artes marciais mistas até Zumba – mas estes locais geralmente operam numa zona cinzenta da lei. “Aisha”, uma alpinista e ativista dos esportes para mulheres, disse que devido às restrições muitas mulheres abrem e operam esses “clubes de saúde” sob licenças para hotéis, alfaiatarias ou salões de beleza, sem terem permissão para oferecer diversas atividades e esportes que estão disponíveis para homens.

Dina, a instrutora de ciclismo, disse que após começar a trabalhar em uma academia em 2013, o local teve de fechar por não possuir as permissões legais. “Nós não tínhamos um lugar onde pudéssemos nos exercitar ou ter aulas”, ela disse, “exceto se fosse em um hospital ou num hotel, ou se fizéssemos isso de modo privado”.

“Salma”, uma empresária saudita e instrutora de esportes, disse que sua academia foi fechada em 2013 por operar sem licenciamento: “Quando o governo fechou nosso centro, todas as integrantes ficaram malucas. Elas nos contatavam pedindo que fizéssemos algo – como por exemplo, escrever uma petição e reunir todos as mulheres integrantes para ir ao ministério ou ao governador da região e pedir por uma isenção. Salma disse que ela, junto a outros membros da câmara de comércio local, apresentaram seu caso ao ministro do bem-estar da juventude e conversaram sobre a importância do licenciamento de academias para mulheres: “Ele disse que estava 100% conosco e que algo precisava ser feito; nós só precisamos encontrar a pessoa certa para levar isso para frente”.

Após essas discussões, Salma abriu uma academia onde ela e outras treinadoras poderiam continuar ensinando spinning, Pilates e treinamentos de força. A academia ainda não está licenciada pela Autoridade Geral de Esportes – mas baseada em suas discussões com as autoridades, Salma acredita que o governo não apenas permitirá que operem, mas logo começará a licenciar as academias para mulheres, para que todas operem legalmente.

Em 2016, o governo anunciou a criação de um comitê interministerial para estudar em detalhes a questão do estabelecimento e licenciamento de clubes esportivos femininos, relatou o jornal Saudi Gazette. Isto pode representar um enorme avanço para regularizar academias femininas e criar novas oportunidades econômicas para mulheres empreendedoras.

A “Visão 2030” da Arábia Saudita reconhece que: “Oportunidades para a prática regular de esportes têm sido limitadas. Isto mudará.” A Visão 2030 foi acompanhada pelo Plano de Transformação Nacional (PTN), que define objetivos específicos para atingir até 2020. O PTN incluiu algumas metas para aumentar a prática de esportes e exercícios no país, incluindo a criação de um currículo esportivo, o treinamento de professores e o lançamento de programas esportivos extracurriculares. Entre outras metas relevantes, o Ministro da Saúde deve melhorar os “serviços públicos de saúde com foco na obesidade”.

Ainda assim, a Visão 2030 e o PTN definem apenas um objetivo específico para aumentar o acesso a esportes e exercícios por mulheres: a criação de um orçamento para o licenciamento de ginásios esportivos para mulheres. Mesmo que este seja certamente um passo no caminho certo, o governo pode e deve fazer muito mais para aumentar as oportunidades esportivas para as mulheres e garantir que elas possam se exercitar tanto quanto os homens.

Competições Esportivas Internacionais
Em 2008, nos Jogos Olímpicos de Beijing, três países enviaram delegações exclusivamente masculinas: Brunei, Catar e Arábia Saudita. O Catar é um exemplo de como um governo inicialmente relutante pode rapidamente prestar apoio oficial à participação de mulheres em esportes. Em 2001, o Catar organizou o Comitê de Esportes para Mulheres do Catar. Desde então, o Comitê já incorporou um currículo esportivo nas escolas e procurou sediar eventos esportivos internacionais para mulheres. Como sinal do apoio oficial do Catar a mulheres atletas, a atiradora olímpica Catariana Bahiya al-Hamad foi escolhida para levar a bandeira nacional na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres em 2012.

A Arábia Saudita permitiu atletas mulheres em uma competição internacional pela primeira vez durante os Jogos Olímpicos de Londres. As duas mulheres, Wujdan Shaherkani no judô e Sarah Attar no atletismo, não atingiram a qualificação Olímpica, mas foram convidadas a participar de algumas semanas antes dos Jogos de 2012 sob pressão internacional, pois a Arábia Saudita era o único país que teria um time inteiramente masculino. As atletas sauditas receberam “convites especiais” do COI, uma maneira de incluir atletas cuja participação é considerada importante por razões de igualdade. O Comitê Olímpico Saudita ordenou que as mulheres se vestissem modestamente, que fossem acompanhadas por tutores do sexo masculino e que não ficassem na companhia de outros homens. As atletas tiveram apenas algumas semanas para se preparar.

Infelizmente, a participação das mulheres em Londres não estabeleceu de imediato um precedente duradouro. A Arábia Saudita enviou uma delegação exclusivamente masculina para os Jogos Asiáticos de 2014 em Incheon, na Coreia do Sul. Mohammed al-Mishal, então secretário geral do Comitê Olímpico Saudita, disse à Reuters que o time saudita dos Jogos Asiáticos de 2014 não tinha mulheres pois “nenhuma havia alcançado o nível para a competição internacional”.

De acordo com as atletas que conversaram com a Human Rights Watch, as mulheres que desejam se qualificar para as competições internacionais estão treinando fora do país, mas ainda necessitam de apoio da Arábia Saudita, incluindo instalações esportivas. Como a alpinista e ativista dos esportes Aisha disse, as mulheres sauditas “são realmente capazes de competir internacionalmente e seus tempos poderiam qualificá-las para as maiores provas, provas internacionais – existem talentos e habilidades reais.”

Em setembro de 2014, al-Mishal prometeu a participação de mulheres nos Jogos Olímpicos de 2016, mas apenas em esportes que, de acordo com ele, fossem “aceitos [para mulheres] de acordo com a cultura e religião na Arábia Saudita”, incluindo esportes equestres, esgrima, tiro esportivo e tiro com arco.

Em julho de 2016, no entanto, a Arábia Saudita anunciou que quatro mulheres competiriam nos Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro, das quais duas são maratonistas. As mulheres escolhidas novamente pelo “convite especial” são Sarah Attar e Cariman Abu al-Jadail, do atletismo; Lubna al-Omair, na esgrima; e Wujud Fahmi, no judô.

O Comitê Olímpico Saudita, responsável por organizar torneios e selecionar os atletas que representarão o país internacionalmente, deveria criar uma divisão de mulheres para apoiar e treinar estas e outras atletas. Federações esportivas deveriam ter divisões tanto femininas quanto masculinas para competições esportivas e organizar torneios nacionais e internacionais.

Saúde e Esportes
O exercício ocasionado pela prática de esportes coletivos e da educação física nas escolas pode contribuir para o bom condicionamento e ter um papel importante na prevenção de doenças não transmissíveis. As mulheres entrevistadas pela Human Rights Watch mencionaram o exercício como algo que ajudou a elas e suas amigas com questões de saúde.

A obesidade é um problema significativo na Arábia Saudita. Um estudo de 2010 revelou que 34,4% das crianças sauditas entre 5 e 18 anos estão com sobrepeso (23,1%), obesas (9,3%) ou severamente obesas (2%). De acordo com o Ministério da Saúde saudita, adultos obesos e com sobrepeso são mais de 70% da população. As mulheres são significativamente mais obesas que os homens, numa proporção de 44% para 26%.

A Arábia Saudita tem os maiores níveis de sedentarismo entre mulheres de todo o mundo. Em um estudo de 2015, as mulheres sauditas tinham o segundo maior índice de sedentarismo (73,1) entre os 38 países muçulmanos analisados. Outro estudo de 2015, conduzido pela Federação Internacional de Diabetes, revelou que a Arábia Saudita apresenta a maior prevalência de diabetes entre os países do Oriente Médio e do norte da África.

A Organização Mundial de Saúde diz que o sedentarismo é uma das principais causas de doenças crônicas, como hipertensão e diabetes. Ele também é um dos fatores de risco para doenças cardiovasculares, câncer e senilidade — todas condições que resultam em mortes prematuras, deficiências e perda de produtividade. Em 2014, doenças cardiovasculares, câncer e diabetes somaram mais de 60% das mortes na Arábia Saudita. Reformas para aumentar o acesso de mulheres e meninas ao exercício físico e esportes são uma maneira de combater os principais problemas de saúde pública relacionados ao sedentarismo nas mulheres sauditas.

A Visão 2030 da Arábia Saudita menciona especificamente a conexão entre exercício e saúde. Ela define como objetivo encorajar “a participação geral e regular em esportes e oportunidades atléticas” para contribuir para “um estilo de vida saudável e equilibrado”. Aisha, a alpinista e treinadora, diz: “Eu devo minha saúde aos esportes e à educação física… Sinto-me mais saudável, mais feliz e tenho mais energia.”

A Arábia Saudita, que aderiu à Convenção para Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher (CEDCM) das Nações Unidas em 2000, é obrigada a acabar com a discriminação contra as mulheres sem demoras, inclusive garantindo a elas direitos iguais à saúde e “as mesmas oportunidades de participar ativamente de esportes e educação física.”

“Nadia”, uma pediatra que também é mergulhadora e faz exercícios para a saúde e bem-estar, tem esperança pelas garotas de seu país. “Eu desejo um futuro melhor para elas — que tenham o direito de praticar esportes em locais abertos e fechados, que possam assistir a partidas e que possam representar nosso país em competições nacionais e internacionais”.

Perfis das Mulheres sauditas

Sarah Attar
Em 2012, Sarah Attar tornou-se a primeira mulher saudita a competir pelo atletismo nas Olimpíadas. Junto à judoca Wujdan Shaherkani, ela foi uma das duas mulheres que representaram a Arábia Saudita nos Jogos de Londres. Ela escreveu: “Eu recebi um convite do Comitê Olímpico Internacional apenas um mês e meio antes da cerimônia de abertura.”

Attar, que já completou nove maratonas desde os Jogos de Londres, estudou artes na Universidade Pepperdine na Califórnia e graduou-se com mérito em 2014. Ela vive e treina em Mammoth Lakes, Califórnia, mas não esqueceu de suas raízes: “Quando visito minha família na Arábia Saudita, eu tenho a oportunidade de falar na escola feminina de minhas primas. É incrível ver o entusiasmo pelo atletismo e perceber como pude diretamente impactar suas vidas”. Em 2013, a artista saudita Shaweesh, parte do coletivo Gharem Studio, criou um grafite de Sarah Attar correndo nos livros de história como uma das duas primeiras mulheres sauditas nas Olimpíadas.

Em um blog publicado em junho de 2016, ela escreveu mais sobre sua experiência: “A reação mais poderosa que vi sobre nossa participação nos Jogos de 2012 foi que agora existe uma geração de meninas sauditas crescendo com a possibilidade de competirem nas Olimpíadas. Elas veem competições de esportes e atletismo como algo que podem alcançar e isso é muito poderoso”. Attar competirá novamente nos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio.

Sua Alteza Real Princesa Reema Bint Bandar Al Saud
A princesa Reema Bint Bandar Al Saud, membro da família real saudita, é uma líder de negócios e ativista pela saúde pública e bem-estar. Em agosto de 2016, ela foi escolhida como chefe da divisão de mulheres da Autoridade Geral de Esportes saudita. Neste cargo recém-criado, ela tem a responsabilidade de implementar uma série de recomendações essenciais para este estudo, incluindo o licenciamento de academias para mulheres e a criação de um currículo de educação física para meninas em escolas públicas.

“As mulheres estão indo para as academias e exercitando-se”, ela diz. “Elas estão definitivamente preocupadas com a saúde.”

A princesa Reema disse que seu objetivo é “divulgar o conhecimento de que não importa apenas o que você come, mas como você pensa, como você respira e como você se move”. Sobre esportes e exercícios para meninas, ela comenta que, “se você quer mudar o pensamento, tem que começar enquanto elas são jovens”.

Raha Moharrak
Em 2013, Raha Moharrak – então com 27 anos – fez história ao tornar-se a primeira mulher saudita e a mais jovem árabe a alcançar o topo do Monte Everest. Devido às limitações da educação e instalações esportivas para mulheres no país, Moharrak precisava treinar sozinha para escalar as montanhas mais desafiadoras do mundo. Em apenas um ano, ela já havia escalado oito montanhas, incluindo o Monte Kilimanjaro na Tanzânia, o maior da África.

Agora, como ativista pela saúde, ela diz: “Não posso imaginar minha vida sem esportes e exercícios”.

Em 2015, aos 29 anos, Moharrak aprendeu como andar de bicicleta para poder fazer parte do Time Shirzanan, um coletivo muçulmano de mulheres esportistas e que pedalou pelo estado do Iowa nos EUA, numa campanha de divulgação da participação de mulheres em esportes como um direito humano. As lembranças de Moharrak, Por Todas Nós Sonhadoras, serão publicadas em 2017.

Ela disse: “Minha esperança, se um dia eu tiver filhas, é que elas nasçam em um tempo sem “primeiras”. Não existiria primeiros recordes, porque todas teríamos os alcançado... Eu quero deixar este mundo sabendo que todas as primeiras vezes já foram realizadas. Não existirá mais algo como o primeiro árabe ou o primeiro muçulmano, a primeira mulher a fazer isso ou aquilo. Eu quero que elas venham e digam: ‘Uau, tudo já foi realizado. O que mais podemos fazer?’ É isto que quero para minhas filhas um dia… Que elas possam ser o que quiserem, e como quiserem, desde que sejam felizes e saudáveis.”