As adolescentes são as vítimas esquecidas do surto de Zika no Brasil. O vírus é transmitido por mosquitos e, quando infecta mulheres grávidas, deixa muitos bebês com deficiências que precisarão de cuidados a vida toda.  Como as adolescentes no Brasil nem sempre recebem as informações necessárias para prevenir a gravidez e têm acesso bastante limitado ao aborto em casos de gravidez não planejada, grande parte das mães de crianças afetadas pelo Zika são muito jovens.

Em uma noite de outubro do ano passado, no estado da Paraíba, uma garota de rosto redondo e 17 anos — vamos chamá-la de Thaís — colocou a filha de 8 meses no colo de sua mãe para conversar comigo. Thaís deu à luz ao bebê com síndrome de Zika em janeiro de 2016, apenas dois meses depois que as autoridades brasileiras começaram a verificar um aumento sem precedentes no número de crianças nascidas com microcefalia – condição em que a cabeça do bebê é menor do que o esperado, geralmente acompanhada de problemas de desenvolvimento do cérebro.

O Brasil não solucionou os já antigos problemas de direitos humanos que permitiram que a epidemia de Zika se intensificasse, deixando sua população vulnerável a futuros surtos e a outros graves riscos de saúde pública. Em maio de 2017, o governo declarou o fim da emergência para o vírus Zika – mas sua ameaça no Brasil permanece.

Enquanto estávamos sentados na sala da modesta casa em que vive com seu parceiro, Thaís me disse que sua gravidez não foi planejada. Como muitas mulheres infectadas com Zika, ela nunca teve sintomas do vírus durante a gestação. Contudo, ela mora em uma comunidade que há muito tempo enfrenta problemas de água e saneamento. Thaís e seu parceiro só têm acesso à água encanada três dias por semana, então, não há outra saída a não ser armazená-la em grandes recipientes.

Os mosquitos podem se reproduzir na água parada, se ela não for mantida devidamente limpa e coberta. Thaís me disse que sempre teve o cuidado de cobrir os recipientes onde armazenava água, mas ela mora perto de um canal de esgoto a céu aberto, cheio de água suja parada — cenário ideal para a proliferação de mosquitos.

“Aqui tem muito mosquito”, ela me disse. “O esgoto não é coberto, e à noite fica cheio de mosquitos. ” Ela só soube que tinha sido infectada com Zika depois que o bebê nasceu. Crianças nascidas com síndrome de Zika, como a filha de Thaís, muitas vezes têm convulsões, dificuldade para comer, problemas de visão, audição e outras complicações.

O Zika já se espalhou para os Estados Unidos. Os mosquitos que carregam o vírus chegaram a partes da Flórida e do Texas e podem transmiti-lo aos seres humanos. O vírus também pode ser transmitido sexualmente. Nos Estados Unidos essa forma de contágio ocorre geralmente por meio de pessoas que retornam de viagens a países afetados pelo Zika. A crise brasileira mostrou a velocidade com que o vírus pode se espalhar se estiver diante das condições certas. O surto no Brasil é associado ao nascimento de milhares de crianças com síndrome de Zika.

Thaís parou de estudar quando a filha nasceu, embora ela espere voltar um dia. Hoje, ela passa seus dias lutando para que as autoridades municipais garantam transporte para que ela possa levar a filha a um centro de reabilitação especializado. Para as mães adolescentes como Thaís, obter os serviços de que seus bebês precisam pode ser extremamente difícil.

O jornal O Estado de S.Paulo informou que cerca de 25% das mulheres e meninas que deram à luz a bebês com microcefalia entre novembro de 2015 e setembro de 2016 tinham menos de 20 anos. Isso significa que mais de 760 adolescentes e mulheres jovens — incluindo 35 meninas entre 10 e 14 anos — estão hoje criando filhos com síndrome de Zika.

Thaís é só uma das aproximadamente 100 mulheres e meninas que meus colegas pesquisadores da Human Rights Watch entrevistaram no nordeste do Brasil, o epicentro do surto de Zika, para um novo relatório. Muitas delas têm histórias parecidas, mas o que realmente me emocionou são as experiências dessas meninas, ainda crianças, tentando evitar a gravidez e se proteger do Zika. Hoje, algumas delas estão criando bebês afetados pelo vírus.

Mais de um terço da população brasileira não tem acesso a um abastecimento contínuo de água e aproximadamente metade não está conectada a um sistema de esgoto, de acordo com os dados mais recentes — isso significa que o esgoto está sendo jogado diretamente no meio ambiente, muitas vezes perto de casas, rios e córregos. É impossível para qualquer pessoa, e ainda mais para uma mãe adolescente criando um bebê, tentar combater os mosquitos em casa quando também precisa lidar com problemas de água e saneamento em suas comunidades.

A gravidez não planejada era algo comum entre as jovens mães que entrevistamos. Os serviços de saúde muitas vezes não fornecerem, de modo claro e acessível, as informações básicas sobre saúde reprodutiva de que elas precisavam. Quase 20% dos nascimentos no Brasil provêm de meninas e adolescentes entre 10 e 19 anos – mais de 560 mil nascimentos por ano. Uma pesquisa nacional envolvendo cerca de 1.000 adolescentes e meninas de 15 a 19 anos descobriu que 21% delas não utilizavam qualquer método anticoncepcional e apenas 17% tinham visitado uma clínica de saúde pública para discutir o planejamento familiar nos doze meses antes da pesquisa.

Mulheres e meninas nos disseram que se sentiram “perturbadas”, “chocadas” ou “desesperadas” quando descobriram que estavam grávidas. Mas suas opções são limitadas. O aborto é crime no Brasil, exceto em casos de estupro, quando a vida da mulher está em risco ou se o feto tem anencefalia — um transtorno congênito fatal no qual o cérebro não se desenvolve. As mulheres são desencorajadas até mesmo a falar sobre o aborto. Várias e várias vezes, as mulheres e meninas que entrevistamos disseram acreditar que não tinham nenhuma outra opção, exceto continuar a gestação — mesmo quando elas não queriam.

Por causa dessa situação, estudos mostram que milhares de mulheres e meninas brasileiras colocam sua saúde e suas vidas em risco realizando abortos clandestinos — e muitas vezes, inseguros — a cada ano. Os médicos nos disseram que atenderam muitas mulheres e meninas no último ano que recorreram a métodos inseguros para tentar induzir o aborto. Algumas tentaram abortar inserindo produtos químicos purificadores de água em suas vaginas, provocando úlceras hemorrágicas.

Mais de 900 mulheres morreram de aborto inseguro no Brasil desde 2005, segundo dados do Ministério da Saúde. Entre 2011 e 2015, uma em cada seis destas mortes tirou a vida de uma menina, de até 10 anos de idade, ou uma adolescente.

Uma jovem me disse que foi estuprada quando tinha 13 anos e tomou medicamentos para interromper a gravidez comprados em uma farmácia. Na época, ela não sabia que, como havia sido estuprada, provavelmente poderia ter tido um aborto legal. “Eu não tinha muita informação”, ela me falou. “Eu não sabia o que eu podia fazer. Eu nem contei para a minha mãe.” Depois de tomar as pílulas, ela sofreu uma forte hemorragia, a ponto de sua roupa ficar encharcada de sangue – ela me disse, encolhendo na cadeira enquanto contava. A jovem conseguiu interromper a gravidez, mas, enquanto ela descrevia o que aconteceu, eu não parava de pensar que ela tinha apenas 13 anos. Imagine o pânico que ela deve ter sentido, sangrando descontroladamente e sem saber o que fazer, e com medo de contar a alguém.

Ser uma mulher adolescente já é difícil em qualquer lugar. Ser uma mulher adolescente sem poder fazer escolhas reprodutivas sobre seu próprio corpo é ainda pior. Ser uma mãe adolescente de uma criança com síndrome de Zika, sem o apoio adequado do governo, é de uma dificuldade incomensurável. E esta é a situação que Thaís e outras meninas brasileiras impactadas pelo surto do vírus Zika estão enfrentando. Elas são “guerreiras”, como descreveu um pai que entrevistamos.

As famílias com crianças com síndrome de Zika no Brasil estão lutando pelo apoio e serviços de que necessitam. Elas batalham para pagar por medicamentos caros, para conseguir transporte para as grandes cidades, onde seus filhos podem ter tratamento adequado, e para continuar trabalhando ou estudando. Uma mãe nos disse: “Se não formos atrás das coisas, se não lutarmos por elas, não vamos ter nada”. Mas ninguém, principalmente crianças como Thaís, deveria ter que lutar tanto para viver e criar um filho com segurança e dignidade.

As autoridades brasileiras devem fazer os investimentos há muito tempo adiados em infraestrutura de água e saneamento, fornecer às mulheres e meninas informações e serviços adequados sobre saúde reprodutiva, descriminalizar o aborto e garantir que as crianças com síndrome de Zika tenham acesso de longo prazo aos serviços e tratamento necessários.

Além disso, os Estados Unidos e outros países devem olhar para o que deu errado no Brasil para impedir que a próxima crise de Zika aconteça.