June 21, 2009

VI. Pessoas Presas por Crimes de Segurança desde Setembro de 2007

Oficialmente, desde o MDE em 2006, O governo de Angola tem negado a continuação da existência de um movimento armado de guerrilha FLEC. Oficiais séniores das FAA e da polícia explicaram à Human Rights Watch em Março de 2008 que aquelas pessoas presas por crimes de segurança do Estado eram “bandidos que se opõem ao desenvolvimento,” [4] ou “pessoas que continuam a identificar-se com a FLEC, que procuram chamar atenção comprometendo a cooperação do governo com países e companhias.” [5] Bento Bembe—antigo líder da FLEC Renovada e líder do FDC e actual Ministro Sem Pasta—explicou à Human Rights Watch em Março de 2009 que “aquelas pessoas não podem ser da FLEC, porque eu represento a guerrilha.” [6] Contudo, os casos documentados neste relatório claramente contradizem esta afirmação, uma vez que muitas acusações nos casos referem-se a alegados envolvimentos em actos concretos de rebelião armada. Documentos dos processos judiciais muitas vezes referem-se explicitamente a alegada cooperação com a FLEC-FAC.

Entre Setembro de 2007 e Março de 2009, pelo menos 38 pessoas, incluindo seis membros das FAA (ver lista em anexo), foram presas por agentes militares e da segurança, por alegados “crimes contra a segurança do Estado”, incluindo rebelião armada e sabotagem, e outros crimes relacionados com acções armadas da FLEC em Cabinda, tais como homicídio, posse ilegal de armas e deserção. A lei angolana sobre crimes contra a segurança do Estado, de 1978, que permite até 215 dias de detenção antes do julgamento, [7] inclui um número bastante vasto e ambíguo de infracções: “Todo e qualquer acto, não previsto na lei, que ponha em perigo ou possa pôr em perigo a segurança do Estado...” [8]

Todos 38 reclusos foram inicialmente mantidos sob detenção militar por longos períodos—de 26 dias a seis meses—antes de serem transferidos para a prisão civil de Yabi em Cabinda e apresentados ao procurador, para serem formalmente acusados, ou levados a comparecer perante um juíz. [9] Até ao momento, já se realizaram dois julgamentos, daí resultando que sete pessoas foram condenadas e quatro foram absolvidas.

Os 38 indivíduos presos e alvo das acusações podem ser agrupados sensivelmente em três categorias:

1. Fernando Lelo e militares das FAA co-acusados

Em Setembro de 2007 as Forças Armadas Angolanas prenderam seis militares das FAA: António Santos Nguimbi (soldado), Lourenço Ila Dembe (soldado), Alberto Suami (1º sargento), Alberto João Chimbinda (soldado), Basílio Muanda (1º cabo), e Custódio Nguimbi Sumbo (1º sargento). A sua prisão conduziu à prisão a 15 de Novembro de 2007 do antigo jornalista da Voz da América (VOA) José Fernando Lelo, por militares angolanos, no seu local de trabalho no acampamento petrolífero de Malongo.

Todos estes homens foram mais tarde acusados de organização ou execução de três ataques armados entre Dezembro de 2006 e Julho de 2007; os elementos das FAA foram ainda acusados de crimes militares tais como deserção. [10] Lelo e os seis foram levados a tribunal perante o tribunal militar de Cabinda de 5 de Maio a 11 de Junho de 2008 e condenados no dia 16 de Setembro de 2008. Lelo foi condenado a 12 anos de cadeia. Cinco dos co-acusados foram condenados a 13 anos de cadeia. Custódio Nguimbi Sumbo foi absolvido. Lelo e os cinco militares condenados encontram-se actualmente presos na prisão de Yabi, em Cabinda, que a Human Rights Watch visitou, enquanto o apelo ao Tribunal Militar Supremo contra a sua condenação continua pendente.

A Human Rights Watch e outras organizações acreditam que Lelo foi alvo de prisão e condenação principalmente como resultado de opiniões que expressou como jornalista da VOA até Dezembro de 2006, que foram vistas como críticas ao governo de Angola e ao Memorando de Entendimento de 2006. [11]

2. Pessoas Presas em Zonas Rurais

A maioria das pessoas presas e acusadas de crimes de segurança entre Janeiro de 2008 e Março de 2009 eram residentes de aldeias no interior de Cabinda. A maioria foi presa em grupos, durante rusgas militares, que se seguiram a ataques armados atribuídos ao movimento separatista de geurrilha FLEC, nos municípios de Buco Zau e Cacongo. [12]

Até ao momento, só cinco daqueles presos João Mateus Luemba, Elias Menos, Garcia David António, António Zau, e Natalício Mbatchi foram julgados pelo tribunal provincial civil de 24 de Março a 22 de Abril de 2009. No dia 7 de Maio, o juíz absolveu quatro dos acusados por falta de provas e condenou Mbatchi a 18 meses de prisão por posse ilegal de armas. Todos cinco tinham sido presos em Janeiro de 2008, mais de um ano antes, e acusados de “crimes contra a segurança do Estado” e crimes relacionados. Na altura, todos foram libertados, incluindo Mbatchi, que já tinha passado 17 meses em detenção antes do julgamento.

Activistas locais dos direitos humanos disseram à Human Rights Watch que mais pessoas foram presas durante rusgas militares em aldeias e foram mais tarde libertadas de detenção militar sem terem sido acusadas e apresentados ao procurador. [13]

 

3. Antigos Membros das FLEC Presos na RDC e Cabinda

Sete reclusos na prisão de Yabi entrevistados pela Human Rights Watch confirmaram que tinham sido membros da FLEC. Cinco tinham estado a viver na República Democrática do Congo (RDC) desde 2005 e 2006. Eles disseram que desde então já não eram membros da FLEC. Eles foram detidos em diferentes locais na RDC em Outubro de 2008 pelos serviços congoleses da Agence Nacionale de Renseignement (ANR), e mais tarde transferidos para Angola. Dois antigos membros da FLEC foram também detidos em Cabinda, em Dinge (Cacongo) e na cidade de Cabinda no mesmo mês. Eles alegaram ainda não terem sido formalmente acusados de qualquer crime.

A Human Rights Watch também entrevistou dois refugiados registados de Cabinda, incluindo um antigo membro da FLEC agora a viver em Lisboa, Portugal, e o actual correspondente da Voz da América em Kinshasa; ambos alegam terem sido ameaçados de prisão e transferência para Angola nos inícios de 2008 e 2009, respectivamente. [14] Estas descrições em primeira mão e outros relatos recebidos pela Human Rights Watch sugerem um padrão mais amplo de prisões de cabindenses na RDC a pedido das autoridades angolanas.

[4]Entrevista de Human Rights Watch com Miguel José Luís Muhonga, primeiro superintendente e segundo comandante da Polícia Nacional em Cabinda, Cabinda, 26 de Março 2008.

[5]Entrevista de Human Rights Watch com Coronel Antonino Pessala, porta-voz do segundo comando regional das FAA, Cabinda, 27 de Março 2008.

[6]Entrevista de Human Rights Watch com General Bento Bembe, Luanda, 26 de Março 2009.

[7] A lei da prisão preventiva em instrução preparatória (18-A/92), arts. 25-26, permite 90 dias de detenção antes do julgamento em casos de crimes contra a segurança do Estado. Este prazo pode ser extendido três vezes, por 45, 45 e 35 dias, respectivamente.

[8] Lei dos crimes contra a segurança do Estado (17/78 de 26 de Março), art. 26.

[9] O Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (PIDCP) no artigo 9 exige que “Todo o indivíduo preso será informado, no momento da sua detenção, das razões dessa detenção e receberá notificação imediata de todas as acusações apresentadas contra ele” e que “Todo o indivíduo preso ou detido sob acusação de uma infracção penal será prontamente conduzido perante um juiz ou uma outra autoridade habilitada pela lei a exercer funções judiciárias e deverá ser julgado num prazo razoável ou libertado..”

[10]A acusação do procurador militar em Cabinda referiu-se aos seguintes ataques armados: No dia 29 de Dezembro 2006 contra um veículo militar em Buco Zau, no qual três soldados foram mortos e dois feridos; no dia 27 de Julho 2007 contra militares guardando uma antena de telemóvel em Buco Zau, matando um soldado e ferindo outro; e no dia 13 de Setembro 2007 contra um veículo militar, matando dois soldados e gravemente ferindo cinco. Cópia do Despacho da Pronúncia, Procuradoria Militar da Segunda Região, Cabinda, 5 de Março 2008.

[11] Human Rights Watch, “Angola–Pôr Fim à Tortura e aos Julgamentos Injustos em Cabinda”, comunicado, 10 de Dezembro 2008, http://www.hrw.org/en/news/2008/12/09/angola-end-torture-and-unfair-trials-cabinda; ver também Amnistia Internacional, “Angola: Julgamento Injusto de Fernando Lelo”, declaração pública, AFR 12/008/2008, September 22, 2008, http://www.amnistiainternacional.pt/index2.php?option=com_content&do_pdf=1&id=564 (acedido no 6 de Junho 2009).

[12] Cinco homens foram detidos em Janeiro 2008 na aldeia Sevo da Vula, Buco Zau, a seguir a um ataque no dia 29 de Dezembro matando um guarda da polícia. Cinco homens foram detidos em Janeiro 2008 na aldeia de Tando Malele, Buco Zau, a seguir a um ataque contra a empresa petrolífera Grant no dia 29 de Dezembro 2007, no qual um empregado brasileiro foi morto. Cinco homens foram detidos em Abril 2008 em Micuma I, Buco Zau, a seguir a um ataque contra trabalhadores da empresa Emcica no 31 de Dezembro 2007 resultando na morte dum trabalhador. Um homem foi detido em Janeiro 2009 em Cossuenda, Buco Zau, a seguir ao assassinato duma autoridade tradicional no dia 30 de Dezembro 2008. Três homens foram detidos na aldeia de Sassa Zau, Buco Zau, no dia dum ataque contra um veículo militar, 7 de Janeiro 2009. Cinco homens foram detidos na aldeia de Liambo-Lione, Cacongo, no dia dum ataque contra um veículo resultando na morte dum trabalhador chinês e ferimentos graves de dois outros no dia 26 de Março 2009.

[13]Activistas dos direitos humanos locais documentaram 11 destes casos entre Junho 2007 e Janeiro 2008. Isto incui o caso de José Gabriel Puati que alegadamente foi morto por soldados das FAA na detenção. Entrevistas com três activistas locais (nomes omitidos) em Cabinda, Março 2008 e Março 2009.

[14] Entrevista de Human Rights Watch por telefone com o correspondente da VOA em Kinshasa, 11 de Fevereiro 2009, e com José Luis Luemba Veras, em Lisboa, 6 de Abril 2009. Human Rights Watch também teve acesso a uma carta de queixa de Veras dirigida à delegação do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) em Kinshasa, de 24 de Março 2008, na qual descrevia as ameaças que alegou ter recebido que o levaram a procurar refúgio em Portugal em Julho 2008.