June 21, 2009

V. Antecedentes

O enclave angolano de Cabinda, com uma população estimada em 300,000 pessoas, é separado das outras 17 províncias do país por uma faixa da República Democrática do Congo (RDC). Produz metade do petróleo de Angola.

O movimento separatista armado FLEC, fundado em 1963, primeiro lutou pela independência contra contra o poder colonial português, e depois contra Angola quando Angola se tornou independente em 1975. Em 2002, com o fim da guerra civil em Angola entre o governo do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), e o principal movimento de oposição UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola), as Forças Armadas Angolanas (FAA) re-colocaram cerca de 30,000 militares em Cabinda para acabarem com o a rebelião separatista. Este esforço militar levou à destruição das principais bases da FLEC no interior e enfraqueceu consideravelmente a capacidade militar da guerrilha.

Em 2004, a Human Rights Watch documentou violações dos direitos humanos em Cabinda no decurso dessas operações contra a rebelião armada, incluindo assassinatos extra-judiciais, detenção arbitrária, tortura e restrições excessivas de liberdade de movimento. De acordo com essa pesquisa, a maioria das violações dos direitos humanos foram cometidas impunemente pelas Forças Armadas. [1] Em 2004, o governo declarava que a guerra em Cabinda acabou, mas que o diálogo continuaria. Contudo, tentativas sucessivas de chegar a um acordo de paz formal com as diferentes facções da FLEC falharam, e ataques esporádicos dos rebeldes continuaram.

Em 2006, um Memorando de Entendimento (MDE) assinado pelo governo de Angola e por António Bento Bembe, o antigo líder da ala da FLEC Renovada e presidente do Fórum Cabindês do Diálogo (FCD), procurou acabar formalmente o conflito armado. O FCD tinha sido criado em 2004 como uma comissão conjunta de representantes das duas principais facções da FLEC—FLEC Renovada e FLEC-FAC—e ainda membros da sociedade civil e das igrejas, com o objectivo de facilitar negociações de paz com o governo. O MDE incluía uma amnistia, um plano de desmobilização e reintegração para antigos combatentes da FLEC, e a atribuição dum número de cargos no governo a antigos dirigentes da FLEC. [2]

O acordo de paz contudo, foi visto como pouco credível em Cabinda, porque a ala mais activa da FLEC, a FLEC-FAC, assim como outros membros do FCD, tinham sido excluídos das conversações, e nenhumas concessões políticas foram feitas aos separatistas. A rebelião armada tem continuado, mas desde 2006 o governo tem afirmado que a guerra em Cabinda terminou e tem atribuído contínuos ataques esporádicos a “bandidos”. A FLEC-FAC reivindicou responsabilidade de vários ataques armados que tiveram como alvo forças governamentais e trabalhadores estrangeiros de companhias privadas. A intensidade do conflito armado e o nível de violações graves dos direitos humanos têm diminuído desde 2004, mas a presença das FAA hoje continua proporcionalmente mais elevada em Cabinda do que em outra região de Angola, o que sugere uma contínua preocupação do governo em relação ao movimento separatista.

Apesar do acordo de paz em 2006, a liberdade de expressão e associação continua particularmente limitada em Cabinda. O governo tem utilizado razões de segurança do Estado para reprimir opositores e observadores pacíficos. No final de 2006 e no início de 2007, dois conhecidos activistas da sociedade civil foram presos por alegados crimes contra a segurança do Estado em Cabinda e foram mais tarde libertados, após pressão pública local e internacional, sem que tenham sido formalmente acusados. [3] Em Julho de 2006, o tribunal provincial extingiu a associação cívica de Cabinda, Mpalabanda, fundada em 2003, alegando que esta organização incitou à violência e agiu como um partido político reivindicando a independência de Cabinda. O novo bispo Católico, que tomou posse em Junho de 2006, dissolveu temporariamente a Comissão Justiça e Paz diocesana, que tinha sido fundamental na documentação de actos de violação dos direitos humanos desde 2002. Como resultado, desde 2006, organizações locais e internacionais têm tido dificuldade em obter informação independente do interior, que confirme alegações de abusos dos direitos humanos cometidos pelas FAA e pela FLEC.

 

[1] Human Rights Watch, Angola: Between War and Peace in Cabinda, briefing paper, December 2004, http://www.hrw.org/en/news/2004/12/22/angola-oil-rich-cabinda-army-abuses-civilians. A sociedade civil, incluindo a associação cívica de Cabinda, Mpalabanda, e a Comissão Justiça e Paz diocesana publicaram vários relatórios sobre a situação dos direitos humanos detalhando abusos em Cabinda desde 2002, a maioria dos quais cometidos pelas FAA.

[2] O Memorando de Entendimento para a Paz e Reconciliação em Cabinda foi assinado no 1 de Agosto 2006 e aprovado pelo parlamento no 16 de Agosto 2006. Ver resolução 27-B/06 de 16 de Agosto 2006, publicado no Diário da República no 16 de Agosto 2006.

[3] Raul Danda, na altura porta-voz da associação cívica de Cabinda, Mpalabanda, foi detido sob acusação de crimes contra a segurança do Estado no dia 29 de Setembro de 2006 em Cabinda, alegadamente por levar artigos de jornal que exprimiam crítica da política do governo em Cabinda. Foi libertado no dia 3 de Novembro de 2006 e mais tarde perdoado sob a lei de amnistia, apesar de nunca ter sido formalmente acusado. Sarah Wykes, activista da organização internacional Global Witness, foi detida em Cabinda no 18 de Fevereiro de 2007 sob alegações de espionagem, e foi mais tarde libertada e finalmente permitida sair do país em Março 2007.